“A Rússia está errada”, diz
Cidadão-Kane
André Nogueira — março 2022
Atenção: o texto abaixo não
é sobre a guerra na Ucrânia, a qual eu repudio, como a todas as guerras, com
todas as minhas forças. Mais do que nunca está claro como a guerra é abjeta e
não combina com o mundo que a gente quer. Lamento e me solidarizo com o povo
ucraniano, vítima de uma invasão injustificável, com o povo russo oprimido por seu próprio
governo, meus amigos com parentes na Rússia ou na Ucrânia, a quem no mais
íntimo essa guerra atingiu. Nós aqui não conhecemos essa guerra, e no entanto
muitos têm dela uma opinião. Arriscando incorrer no clichê filológico, por
esses dias me vi pensando em “pólemos”, que em grego antigo significa guerra e
de onde vem a nossa palavra “polêmica”. Tenho observado essa outra guerra, de
opinião, não só da minha com a sua, do padeiro com o motorista, do professor com
o verdureiro. O bombardeio midiático está no controle de agentes tão poderosos
quanto os Estados beligerantes, senão deles mesmos, para quem as nossas mentes
são territórios em disputa. De fato já podemos dizer que a III Guerra Mundial
está instaurada no plano da informação. E é no plano da informação que melhor
se entrevê o limite da frágil máscara democrática sob a qual se apresentam os
governos liberais. Todo o aparelho comunicativo está ao dispor dos oligopólios
daqui como de lá, rádio e Tv continuam sendo, para uns e para outros, não
veículos de comunicação, e sim armamento pesado. Nunca se realizou, em nenhuma
das nossas democracias, uma real democratização desse aparelho, o que nos
permitiria, senão um maior entendimento mútuo, um debate minimamente horizontal
por posições ideológicas. E mesmo assim, enquanto nos digladiamos uns aos
outros, esquecemos que nos separar sempre foi o maior objetivo dos dominadores.
Lembro do saudoso prof.
Roberto Romano, ao citar (se não me engano) Erich Auerbach, uma comparação do
noticiário com o teatro: o noticiário ilumina a cena parcialmente como um
holofote e ao restante mantém no escuro, dando o enquadramento desejado, mas a
realidade de um fato, suas causas e circunstâncias, só poderia ser descoberta
se as luzes do palco se acendessem em todos os ângulos, iluminando o evento por
inteiro. A conhecida charge em que o foco de luz faz confundir esfaqueador e
esfaqueado vem a calhar, apenas que ambos, nesta “guerra de agressão”, agressor
e agredido estão armados até os dentes, e armados também outros agentes
invisíveis, que operam no fundo escuro, e sem excluir a arma talvez mais
importante, que é a própria câmera e seu foco na conquista de uma posição
ideológica. Como é sabido, e ficou mais uma vez comprovado com a prisão de
Marina Ovsiánnikova por seu protesto ao vivo no Primeiro Canal moscovita, a
televisão russa é um meio de propaganda governamental, sem espaço para o
contraditório, e desafiar a censura naquele país pode ter um custo muito alto. É
a ditadura de lá exposta na sua crueza. Porém essa lembrança das aulas de
filosofia me veio ao testemunhar esses dias em que no mundo inteiro se censuram
e tiram do ar os canais russos de televisão em todas as plataformas, além de
documentários e outros materiais jornalísticos críticos ao golpe ucraniano de
2014, ou voltados à questão humanitária em Donbass, etc. É sintomático como o
Ocidente inteiro reagiu, a reboque das grandes plataformas Meta, Youtube, etc.,
sob o clamor das potências mundiais, para impor uma visão unilateral dos
eventos também por meio de censura, da exclusão do contrário e atentando contra
o princípio mais caro de sua tão defendida e na realidade frágil “democracia”. Notícia
tendenciosa por notícia tendenciosa, o espectador não pode mais comparar
ângulos diferentes de um mesmo conflito, criticamente, sabendo que ambos os
lados veiculam não o fato, mas o reflexo nesse fato de seus próprios
interesses. E ao se deparar com a narrativa única (infinitamente repetida até
que se torne uma verdade) o espectador minimamente crítico sabe que a notícia
se converteu, também aqui, em propaganda. E, se propaganda, seja o que seja,
não é confiável. Ambos lados da guerra informacional impõem a unanimidade como
uma lei. E se desfiar essa lei entre nós não custa uns anos na cadeia, tampouco
há o lugar, a arena de debate para lançar o desafio. É interessante notar que
na Rússia tecnicamente a televisão está sob controle do Estado autoritário; no
Brasil, sob controle do mercado; mas o resultado é o mesmo: informação
altamente controlada, ausência de uma liberdade factual.
Em nosso teatro mundial
encena-se agora um pastiche do enredo norte-americano em que o vilão ou o
diabo por puro sadismo ameaça dominar o mundo e deve ser contido por um mocinho
super-herói defensor da democracia. A compreensão dos eventos se reduz ao
esquema dualista, com música melodramática e apelando, como nos filmes, às
emoções, ao medo, ao instinto de sobrevivência, e nunca a uma análise histórica
e material dos eventos. Não por acaso a resposta imediata que se tem é o ódio,
justificado ou não, por tudo que lembre a face do vilão, ou a face do mal, a
saber, qualquer nome terminado em “óvski”, o cancelamento a-crítico e
indiscriminado sem dúvida aprendido no ambiente moralizador das redes sociais. Mas
em geral o mais conveniente é se pessoalizar o debate, afirmando que esta é “a
guerra de Putin, a guerra de um homem só”, como se a vontade de um ditador se
impusesse sozinha, e evitando olhar para o fato em sua complexidade, para os
mecanismos das relações entre os países, para os conflitos de interesse que, se
investigados, acabariam por espirrar em direções indesejáveis. A radical
simplificação se completa com a patologização psíquica do adversário: Putin
seria um “louco”, um descontrolado no controle de um arsenal nuclear. E a
principal característica de um louco, sabemos, é não ter razão. De outro lado,
por essa mesma dualidade infantil, assistimos a fabricação de um herói:
“Zelenski se tornou uma figura que inspira pessoas no mundo todo”, disse Yuval
Harari para a Tv Globo, “até meus sobrinhos nas redes sociais têm figurinhas de
Zelenski tipo super-herói: o Capitão Ucrânia!”, e ressalta que tal título a ele
é conferido “por sua bravura”, em nenhum momento lançando um olhar crítico para
o aparelho que produz essas representações. Desta heroização não escapam nem
artigos de rebuscado interesse acadêmico, como “Zelensky, herói iconopolítico”,
de Frédéric Bisson, de que falaremos adiante.
De modo geral é muito fácil
invocar esse “diabo” e o herói que o completa, pois o esquema dual está posto,
e nunca foi superado, desde a educação dos sentidos pela Guerra Fria. Por
exemplo, por que foi tão fácil, no Brasil, depor uma presidenta do Partido dos
Trabalhadores e re-avivar o discurso de intervenção militar? Simples, porque
isso a ditadura nos ensinou, seguindo o roteiro do golpismo estadunidense, que
contra a “ameaça vermelha” a receita é o militarismo, o recrudescimento, a
privação de direitos e liberdades, etc. Possivelmente a direita “moderada”,
perdedora das eleições de 2014, pretendeu usar o discurso anti-comunista,
enraizado nas bases culturais do país pós-ditadura, para se restabelecer no
jogo político, mas na eleição seguinte o apelo popular invariavelmente
descambou para o militarismo mais grosseiro e autoritário, ressuscitando velhos
ídolos dos porões do DOPS, pois este é o complemento necessário do teatro
dicotômico da Guerra Fria. Do mesmo modo hoje, a nível mundial, o mundo está
disposto a transpor o cortinado mambembe da democracia liberal rumo ao
autoritarismo desnudado para se opor a esse grande Outro-autoritário que se
levanta das estepes. O inimigo é esse outro, o árabe, o russo, o chinês,
(“oriental”) e quanto maior a distância cultural mais cola a pecha de “louco”,
“extremista”, etc. Passados trinta anos, a Guerra Fria parece novamente
esquentar, e essa mentalidade volta à tona com mais força, mas de fato ela tem
sido alimentada por todo esse tempo, afinal, o rótulo de comunista está sempre
ali de pretexto para se massacrar trabalhadores em qualquer país. Nós, quintais
dos EUA, não só engolimos sua propaganda hollywoodiana como temos as botas
deles marcadas em nossas costas, porque nos ensinaram bem, nesses mesmos
porões, a concordar com tudo o que nos disserem. Um exemplo de mentalidade
colonizada: o “especialista em relações internacionais” Leonardo Trevisan
aparece na Tv citando Nixon: “é preciso colocar uma cunha para separar
Rússia e China”, argumentando que uma aproximação entre os dois países seria “muito
preocupante para nós”, e acrescenta: “para nós, digo, o Ocidente”. Interessante
que “Ocidente”, aqui, significa tão somente Casa Branca, e “preocupante” quer
dizer: para a manutenção dos interesses econômicos da Casa Branca; e é
sintomático que isto seja reduzido ao pronome “nós”.
Sem entrar nos deméritos da
famigerada OTAN, é claro que esta corporação se consolidou na Europa como uma
proteção contra a suposta “ameaça” de um avanço da URSS para oeste. Com a
invasão russa da Ucrânia essa paranóia é conscientemente reavivada, Joe Biden
chegou a dizer e repetir que o objetivo de Putin é restabelecer a URSS,
afirmação que não se sustenta ideologicamente, mas talvez territorialmente, se
a guerra resultar numa expansão, a retomada de uma pretensão imperialista
oriental. Enquanto isso, a OTAN há anos vem se expandindo para leste, já não
como uma barreira defensiva, e de modo algum isso é visto como uma “agressão”
ou rompimento de limites. A última vez que bases militares americanas chegaram
tão perto, instalando mísseis na Turquia, quase se precipitou a guerra nuclear,
durante a Crise de 1962. E agora Putin blefa, avisando que seu aparato nuclear
está em alerta, e Biden ao dizer que a menor agressão russa a um Estado membro
da OTAN será a III Guerra. Enquanto o imaginário da Guerra Fria volta a atuar,
sobressaem no mapa as áreas marcadas, variações do mesmo jogo que gostam os
ianques malditos de brincar, fazendo do mundo seu tabuleiro de poder. Alguns
países, na América Latina e em África, eles dominam financiando golpes; outros,
no Oriente Médio, invadindo com força armada sob pretexto de “combate ao
terrorismo”; e outros, na Europa, “protegendo-os” e formando uma liga: a OTAN.
A Ucrânia, pelo visto, também é um quadrado no tabuleiro, e a diferença
essencial entre a agressão russa e a investida dessa liga é a escolha do método
pelo qual o imperialismo de lá ou daqui tenta marcar esse território. A liga
das nações dá a pauta para o debate na Assembléia da ONU e se ratificam as
exigências estadunidenses: também aqui é um bloco em ação. As medidas punitivas,
quer dizer, as “sanções”, aplicadas contra a Rússia, seriam em tese uma
tentativa de sua pacificação por sufocamento econômico, tecnicamente uma
manobra de guerra. Paulo Arantes, falando sobre o bloqueio dos EUA a Cuba
durante a crise dos mísseis em 1962, lembra que o governo norte-americano, nos
comunicados oficiais, evitou usar a palavra “bloqueio”, substituindo-a por
“quarentena”, isso porque “bloqueio é sinônimo de declaração de guerra... desde
a Guerra do Peloponeso, bloquear uma cidade, um porto, equivale a declarar
guerra”. O mesmo se poderia dizer de um bloqueio bancário mundial a um
país?
Dizem agora que “desde
Aristóteles” a pior falácia é opor o argumento “mas e...”, a saber: “mas e o
outro?” (mas e os EUA? mas e a guerra no Iraque?), que isto seria uma espécie
de consciência infantil, como de uma criança brigando com a outra por um
chocolate. Compreendem assim porque muitos que hoje interpõem o questionamento
sobre a chamada “indignação seletiva” o fazem também dicotomicamente ao assumir
para si um lado; com isso, o questionamento é recebido de maneira igualmente
infantil. No entanto, mais falacioso é reduzir o argumento ao absurdo, como se
a proposta de um contraponto comparativo fizesse desmerecer ou diminuir a dor
presente; pelo contrário, adquirir uma visão em perspectiva, iluminando o fundo
escuro, é a condição para que nenhuma dor seja nunca diminuída, ou nem
percebida, no âmbito do debate público. É possível não sentar na gangorra
lógica do “isto ou aquilo”, não se deixando contaminar pelo ambiente mental
estéril da digladiação mútua, nem por enredos de vilões e super-heróis, e ao
mesmo tempo não se isentando de tomar sim um lado, o lado certo, afinal quem
ama verdadeiramente a paz sabe que não é este ou aquele Estado nacional que a
vai garantir, nem tampouco um liga de nações imperialistas com longo histórico
genocida. A verdadeira paz provirá da solidariedade universal entre os povos, e
as atuais resoluções da ONU de modo algum falam sobre isso; nelas transparece,
antes, o poder de uns Estados sobre outros, uns que dão a pauta e outros que
acatam. Se faço contrapontos críticos, ao apontar certa “seletividade” na
guerra de informação, não me refiro entretanto à indignação que cada um de nós,
com toda razão, sente no seu íntimo ou manifesta publicamente em resposta à
guerra material. O objetivo não é moralizar ou dessensibilizar o debate mas,
isto sim, perceber como as cartas desse debate são dadas por grandes agentes
que de algum modo participam do conflito ou têm nele interesse, e como a nossa
justa indignação é conduzida, de acordo com esses interesses, para uma raia
improdutiva.
A entrevista de Paulo Arantes
(para o Projeto Bons Dias Brasil, 15 de março 2022) nos dá uma dimensão do
problema da atual guerra na Ucrânia em sua relação com a Guerra Fria nunca
superada e insuperável, enquanto houver armas nucleares. De fato o impacto que
a atual guerra tem para a percepção histórica advém do perigo nuclear de um
confronto entre as duas potências, EUA e Rússia. Arantes nesta bela entrevista
(uma das únicas recentes que valeu a pena ver) comete somente um pecado, na
minha opinião, ao afirmar que a presente guerra surpreende por ser um retorno
inesperado da “shooting war”, ou seja, guerra de tiro, que “o mundo já não via
isso acontecer: tiro de metralhadoras, tanques entrando nas cidades”, etc. Ora,
certo que não se invadiu o Iraque ou o Afeganistão com flores, nem tão somente
com armas “inteligentes” guiadas por drones que atingem seus alvos
“cirurgicamente”. O mesmo contra-senso diz o “historiador” best seller Yuval
Harari em (esta um lixo de) entrevista que concedeu ao Fantástico em 6 de março:
“vivemos um período de paz duradoura”, ele diz, “desde 1945 que um país
reconhecido internacionalmente não é conquistado e varrido do mapa por um vizinho
mais forte, até a II guerra essa sempre foi a norma, mas tinha deixado de
ser... até Putin invadir a Ucrânia”. Ora, Harari é israelense e vive em Israel,
decerto ele vê o que acontece sob seu próprio nariz, inclusive esse “reconhecido
internacionalmente” (ele brande o dedinho ao dizer, como se asseverasse a
condição) é malicioso. Mas não é a única condição maliciosa da proposição,
temos também o termo de vizinhança, como se guerra fosse apenas um recurso de
expansão territorial (como em Israel) e significassem uma agressão menor as
guerras de predação, como faz os EUA, cruzando a outros continentes para pilhar
o seu petróleo.
A guerra na Ucrânia, portanto,
além do terrível sofrimento humano, tem peculiaridades que a tornam
especialmente preocupante, e no entanto há certa invisibilização de outras
guerras, igualmente ou mais terríveis, uma tendência a empurrá-las para uma
categoria menor, algo que do ponto de vista técnico já é problemático, mas
simplesmente injustificável no tocante ao sofrimento humano em outras regiões
do globo. E se pertencem a uma categoria menor, naturalmente não deveriam
implicar medidas tão firmes quanto as que se tomam agora para conter a agressão
russa. O componente racista dessa invisibilização é um lugar comum, não só
porque ao longo de todos esses anos Iêmen, Síria, Iraque, Líbia,
Afeganistão, etc., não mereceram tal mobilização mundial pela paz. A
discriminação no trato com os refugiados continua a ser uma chaga moral da
Europa. É paradoxal porque o primeiro facho de luz faz ver a extensão da treva,
e a atual união das nações pela paz só revela o quanto elas na realidade estão
habituadas e não se incomodam com a guerra, desde que estoure no sul do
mundo, e melhor se o petróleo jorrar e cair diamante nos bancos suíços. Do mesmo
modo, só agora levantam-se das cadeiras pelos direitos da pessoa humana,
mostrando que, para eles, esses direitos não importavam como importam agora, ou
talvez as pessoas pareçam, para eles, humanas em diferentes graus. Na
realidade, a razão por que os países europeus estão em polvorosa não é o
perigo de que a guerra se espalhe pelo mundo, e sim que a guerra que com sua
anuência corre o mundo venha a estourar na sua vizinhança próxima, no sagrado
solo europeu. Não pela paz, só preocupação consigo mesmos. O premiê do
Paquistão Imran Khan, pressionado pela ONU a aderir às resoluções contra a
Rússia, respondeu assim:
“Foi o Paquistão quem ajudou a OTAN na guerra
contra o Terror, nós fomos seus aliados. E qual nossa recompensa? 80 mil
paquistaneses perderam a vida, nossas áreas tribais foram completamente
arrasadas e 3 milhões e meio de pessoas deslocadas, nosso país perdeu mais de
U$100 bilhões, e eu gostaria de perguntar ao embaixador da União Européia se
ele nos disse ao menos ‘obrigado’. O senhor valorizou nosso apoio a vocês? Vocês
nos apreciaram em sua guerra? As perdas humanas totais da OTAN foram menos de
10% das nossas 80 mil, e mesmo assim, em vez de valorizarem nosso sacrifício,
muitos de vocês nos culpam de sua falha no Afeganistão. Em segundo lugar, algum
de vocês cortou laços diplomáticos com a Índia quando ela violou o direito
internacional e a resolução CS da ONU sobre a Caxemira, encerrando seu status
especial? Vocês a criticaram? Encerraram o comércio com a Índia? O que vocês
acham de nós? Somos lá seus escravos para seguir suas ordens de qualquer jeito?”
Talvez o questionamento sobre
a “indignação seletiva” não seja só um recurso retórico de quem comenta na
internet e sim uma reclamação factual vinda de regiões atingidas pela guerra e
menos “valorizadas” em sua dor. Num outro curioso exemplo, novamente Leonardo Trevisan, quando perguntado sobre por quê a maioria das
abstenções na ONU em relação às sanções provinha da África central, respondeu apenas que esses países “estão sob a influência da China” e
a seguiram na escolha por se abster; não considera, primeiro, que a escolha
mundial quase unânime pelas sanções expressa também uma área de influência,
hegemônica, e uma forma não menos eficaz de pressão, e segundo, que muitos
desses países africanos estão em guerra presentemente ou, em razão de sua
própria catástrofe, têm mais coisas com que se preocupar em lugar das sanções
contra a Rússia. Outra falácia, além de encerrar as guerras no sul do mundo
numa categoria supostamente menos violenta, o que definitivamente não são, é
pressupor um deslocamento temporal, como se alguém, ao acusar a dita
“indignação seletiva”, sacasse exemplos de guerras passadas que não receberam o
mesmo tratamento e com isso procurasse diminuir a guerra presente na Europa,
que realmente importa agora. Na realidade, são guerras que acontecem nesse
momento (Iêmen, Etiópia, Síria, etc.), golpes de Estado violentos que ocorreram
este ano ou ano passado e concorrem para guerras civis (Burkina Faso, Mali,
Guiné, em nosso continente o Haiti, etc.) e que poderiam ser incluídos na
pauta, no manifesto da ONU pela paz, ou se poderia arranjar um espaço no
noticiário para esses países que muitos no “primeiro mundo” nem nunca ouviram
falar. Moçambique vive uma guerra nas províncias do norte, onde rebeldes
jihadistas promovem decapitações e saques, e não sabemos sobre isso porque não
há espaço nos noticiários; mesmo, portanto, entre países de uma mesma
comunidade lingüística, não se estreitam laços solidários. Nas relações entre
países os únicos “laços” são de interesse, encobertos por um manto de
solidariedade, para serem apertados ou afrouxados de acordo com as riquezas que
se possam extrair.
Naturalmente a fala de Imran
Khan expressa também um blefe e interesse específico. Imran em seu país é mais
um de uma seqüencia autoritária de chefes de Estado; ele é famoso por ter
instituído a pena capital contra o “pecado da blasfêmia” para qualquer
associação indevida ao nome de Maomé, e também muito mal visto por seus ataques
ao movimento feminista e mulheres em geral. Não melhor é o presidente da Índia,
Narendra Modi, adepto de uma espécie de fascismo à indiana e cujo maior ídolo
de culto, ressuscitado por um sem número de estátuas e celebrações cívicas, é Nathuram
Godse, nacionalista hindu que em 1948 assassinou Mahatma Gandhi a tiros.
Rasgou-se assim a proposta de Gandhi de uma coexistência pacífica entre as
religiões, embora Modi se faça passar por um iogue espiritualizado. Promulgando
leis que restringem direitos da minoria muçulmana no país, o governo da Índia
protagoniza ações violentas, como demolições de mesquitas históricas, ataques a
tiros de milícias a universidades islâmicas, e agora, com a anexação em 2019 da
Caxemira, área autônoma de maioria muçulmana, impõe dificuldades para essa
população no âmbito de um novo registro civil, que visa desprover da cidadania
indiana e deportar parte da população, “desmuçulmanizando” a área (inclusive é
reportada a construção de campos de concentração destinados para esse fim). É,
portanto, mentira que não existem ações expansionistas de uns países sobre
outros, como afirma Harari, ou sobre territórios indefinidos em decorrência de
guerras, e não por acaso a Caxemira tem sido apontada (por exemplo, em artigo
de Fábio Luis Barbosa Santos) como a “Palestina do Estado indiano”. Não é que
não existam, apenas não se dá visibilidade a estes conflitos no âmbito da
Comunidade Internacional, que nada faz para evitar o genocídio e a ascensão do
fascismo nestas áreas. As guerras do Ocidente nesses territórios, desde a
ocupação e exploração colonial, apenas reforçaram os despotismos locais, e se Imran
ou Modi hoje são presidentes é porque toda ação gera uma reação. Interessante
que Imran não era o governante do Paquistão no tempo da guerra estadunidense
contra o Afeganistão, e diz: “se fosse eu [a presidir o governo], jamais teria
lançado meu país nessa loucura”; e podemos dizer que o inverso seria
verdadeiro: não tivesse o governante anterior cedido aos EUA na “loucura” da
caça ao Bin Laden (morto no Paquistão), Imran não seria premiê. Além disso, já
que a Caxemira é uma Palestina, a Palestina decerto será uma Caxemira;
perguntaríamos então ao senhor Harari por que não se impõem sanções ao Estado
assassino de Israel quando este bombardeia Gaza, destroçando meninos palestinos.
Devo rir ou chorar com o pronunciamento da representante israelense na ONU “pela
paz”? Legítimo me parece o boicote à Rússia pela banda Pink Floyd na pessoa de
Roger Waters, que desde sempre encampa, em vão, um movimento de boicote mundial
a Israel. E nem ao Caetano Veloso conseguiu convencer, quanto menos aos
ilustres integrantes da ONU! Definitivamente, as nações espoliadas estão
sozinhas, não se olha por elas e não é por acaso; existe aqui um elemento de
culpa não assumido dos europeus pelas ex-colônias, as paisagens de devastação
que eles mesmos causaram e não querem encarar de frente.
Mas o caso vai além, quer
dizer, para a “colonização” econômica no tempo presente. Por que razão, por
exemplo, os países ricos, sempre engajados na defesa da Amazônia, não impõem “sanções”
contra empresas flagrantemente criminosas para com o meio ambiente amazônico,
como a mineradora norueguesa Hydro ou o banco canadense Forbes &
Manhattan? O governo da Noruega concede uma bolsa milionária para
iniciativas de preservação ambiental na Amazônia e investe três vezes mais
milhões em mineradoras com “dutos clandestinos” que emporcalharam as nascentes
do rio Muripi. Já a refinadora de ouro italiana Chimet lucrou 18 bilhões, seu
maior montante da história, com o ouro traficado do garimpo ilegal na Terra
Indígena Kayapó. Não seria mais eficiente, em vez de “conceder” sua
benevolência financeira, sancionar, bloquear, embargar as contas bancárias
dessas empresas? Não, a liga das nações nunca vai tomar uma atitude efetiva
contra essas guerras e devastações simplesmente porque eles (o “primeiro
mundo”) têm culpa no cartório e não podem sancionar a si mesmos. Sua
benevolência é uma mínima fração desse mesmo ouro roubado. Outro dia assisti um
documentário da Deutsche Welle sobre a extração ilegal de ouro nas Filipinas; o
filme acompanha o processo desde o garimpeiro miserável até o traficante filipino
mais bem sucedido, mas não entra no mérito de onde esse ouro vai parar no fim
das contas. Segundo o sábio Harari, se além das sanções os governos investirem
rapidamente em “energias verdes” a ponto de baixar o valor do petróleo russo,
“seria o fim de Putin, e de quebra resolveríamos o problema das mudanças
climáticas!” É isto o que representa o meio ambiente, “um bônus”, ele mesmo
diz, na tabelinha dos cálculos de guerra. Fácil, portanto, é sancionar o outro,
no caso a Rússia, e representar nela o mal planetário, de acordo com interesses
estritamente estratégicos e econômicos que nada têm a ver com a paz ou o
“clima”.
A propósito, as redes de
gasodutos Nord Stream, gigantesco empreendimento russo para abastecimento de
gás natural, que da Alemanha é distribuído a outros países europeus, desde a
construção da primeira rede (Nord Stream 1) acarretou uma forte pressão do
governo estadunidense para que esses países “busquem outras alternativas” e não
dependam do fornecimento russo. Durante a construção de Nord Stream 2 “o
presidente Donald Trump chegou, em 2018, a anunciar sanções a todo indivíduo ou
entidade envolvida no projeto, o que fez com que cerca de 18 empresas
européias, incluindo a alemã Wintershall, desistissem de patrocinar a
construção da nova linha”. O argumento parece ser de natureza estratégica, por
temor de que “o governo russo possa usar o fornecimento de gás como ‘ferramenta
de persuasão e pressão em disputas com o Ocidente’”, mas o real interesse é tão
somente econômico. De fato a tentativa de Trump terá sido o ensaio das sanções
que se impõem agora e que incluem fechar as torneiras dos gasodutos russos. Ao
mesmo tempo, sabe-se que o atual presidente norte-americano Joe Biden tem
negócios a zelar na Ucrânia, negócios inclusive familiares: seu próprio filho
Hunter Biden integra o conselho administrativo da Burisma, empresa ucraniana de
gás natural. Esse fato veio a tona em 2019, quando Joe Biden era candidato, mas
realmente o aperto de mão entre a família Biden e os oligarcas do gás ucraniano
aconteceu no fatídico ano de 2014; Biden-pai teria usado sua influência como
vice-presidente de Obama para tratar desses negócios precisamente no ano em que
Ianúkovitch foi deposto no golpe de Estado ucraniano e substituído por um
governo anti-russo e pró-ocidente. Estas são as peças no tabuleiro, estas
são as cartas na mesa, estas são as razões do bloqueio, e não a paz. E
as “energias verdes” vão entrar sim no negócio, se for promessa de lucro quando
a fonte esgotar. Enquanto isso o trabalhador europeu pode dormir “em paz”, com
a alma lavada de ter feito sua parte para evitar a III Guerra, e pagando uma
conta dobrada do gás oferecido pelo concorrente ianque.
Mas voltemos à questão da “indignação
seletiva”, agora não em comparação com outras guerras mundo afora, e sim nos
distintos tratos com essa mesma guerra russo-ucraniana em seus diferentes
lados. É interessante que na Deutsche Welle, na CNN, etc., não são mencionadas
vítimas civis de etnia russa nas áreas de conflito separatista, como aliás não
as mencionaram por todos esses anos desde 2014. A jornalista francesa
Anne-Laure Bennel, que cobre esses conflitos desde o documentário de sua
autoria “Donbass”, reportou que forças ucranianas estão bombardeando populações
civis de etnia russa na região, porém os canais franceses classificaram sua
cobertura como “propaganda putinista”, “fake news” e outros rótulos,
impedindo-a de ir ao ar. Há portanto certa barreira para impedir o exercício da
empatia em relação a essas vítimas. Já na televisão russa as vítimas civis
ucranianas não têm lugar no noticiário, a não ser que sob o argumento, não de
todo implausível, de que milícias nazistas entrincheiradas em Mariupol usam-nas
como “escudo humano”. Ou então, com espantosa frieza, se chegam imagens de
civis ucranianos abatidos por forças russas, inspeciona-se a fotografia do
cadáver para se provar, “cientificamente”, que se trata de uma montagem. Da
cobertura jornalística na televisão russa, ao menos na RT, me pareceu que os
russos são mais “formais” na maneira de veicular (herança kremlinológica: as
cartas estão dadas, é seguir a cartilha, e ai de quem não); a guerra é sempre
referida por “operação militar especial”, como ordena o governo, e não se vê um
especial apelo para o lado sentimental, salvo talvez na cobertura da população
civil alvejada nas áreas separatistas. Evidente, a identificação aqui é de
russos com russos. A dor das pessoas humanas, portanto, é repartida, e cada
lado do conflito chora somente os seus, mas a dor do lado oposto é omitida, ou
então manipulada, ou então desacreditada. Essa “formalidade” russa é na
realidade falsa, e a pessoa desobediente, por um cartaz ou indevida exclamação,
é desaparecida, presa, torturada (a sujeira da tortura nos porões da limpeza
“formal”). Já em nosso país o que se passa nem de longe lembra uma formalidade,
antes pelo contrário: apelação emotiva. Mas não vamos falar do Fantástico e da
espetacularização em si, tomemos por exemplo uma tentativa de criar um debate
“especializado”: também na Tv Globo, Guga Chacra pisou um centímetro fora da
linha e levou uma bronca no ar, a ponto da excomunhão; ele falava sobre “teoria
realista”, “realpolitik”, quer dizer, o jogo estratégico de interesses por
detrás dos movimentos nacionais (“formalidade”); respondido por vociferações do
Carlos Sardenberg, ele se retrata: “não me associe a qualquer forma de defesa
da ditadura sanguinária de Putin”. É interessante que na televisão russa (ao
menos nos noticiários que eu vi) Zelenski não costuma ser chamado “ditador
sanguinário”, “czar carniceiro”, etc.; em geral ele é designado por mandatário
ou algo equivalente. Se no Pravda soviético certas notícias só poderiam ser
ditas nas entrelinhas, todavia nós, sob os holofotes de Cidadão-Kane,
aprendemos a arte da notícia bombástica.
O bombardeio é intenso, como
na guerra (literalmente), para acertar o ponto sensível e desnortear a
percepção do sujeito, e a apelação faz parte do espetáculo, o choque necessário
ao frenesi de opiniões. Nas redes sociais, não preciso dizer, o cancelamento é
a regra. Pensando bem, até a atitude das nações, nas relações internacionais,
reproduz um comportamento “cancelador”. Por exemplo, o governo da Lituânia
cancelou o envio de 440 mil doses de vacina para Bangladech em retaliação
porque o país não se posicionou contra a Rússia na assembléia da ONU.
Obviamente o resultado desse cancelamento será o aumento do número de mortes
por covid-19 num dos países mais empobrecidos da Ásia. Maior lástima, para quem
acompanha a digladiação pública na arena das redes, é perceber o efeito nocivo
dessa lógica para a constituição de um senso crítico, às vezes até entre amigos
ou pessoas de intelecto insuspeito. Saltam aos ouvidos, na bronca
do Carlos Sardenberg, expressões como “o caso é o seguinte” (que ele
repete, levantando o tom, duas vezes em seqüência), ou proposições sentenciosas
como “a Rússia está errada!” Ou então, um professor universitário, revoltado
com a falácia do “mas e...”, diz: “não existe ‘mas’ em se tratando de
refugiados, mulheres e crianças, etc.” (mais perfeita formulação impossível: o
“não existe ‘mas’” é o contrário complementar do “mas e...” e reproduz em
essência a mesma falácia); já outro professor universitário, um historiador
famoso, repreende uma colega de trabalho, que recomendou nas redes sociais um
documentário crítico ao golpe na Ucrânia de 2014 e a conseqüente situação da
população civil em Donbass: “Não é preciso ver documentários, basta ver o
bombardeio implacável que destrói a Ucrânia”, etc. Com isso, há uma pressão
muito forte, moral, para não (queria dizer assumir o lado oposto, mas não é
isso, precisamente:) nuançar o debate. O dilaceramento emocional, que impacta a
todos em virtude da guerra, se converte na exigência de não racionalizar suas
problemáticas, como se automaticamente isto significasse uma insensibilidade
para com a dor humana. No entanto, existe sim algo de insensível no
comportamento de certa trupe putinista que usa da gélida “formalidade” das
justificativas pró-russas (os tratos descumpridos da OTAN, a necessidade de um
mundo multi-polar, etc.) para acatar ao “mal menor” da guerra. De outro lado,
essa falta de empatia se reproduz no seu inverso ao não se permitir uma empatia
com as vítimas de Bonbass (esse mesmo professor-historiador diz: “só há um povo
sendo destruído na Ucrânia: o povo ucraniano!”). O debate resulta então
interditado, corta-o de fora a fora o “isto ou aquilo” e não se consegue fazer
uma leitura ao mesmo tempo sensível e crítica dos eventos. “Hay que endurecer
pero sin perder la ternura”, e diríamos ainda, há que ter o coração terno,
sensível ao drama humano presente, mas sem derreter o cérebro e a capacidade de
pensar. Falaciosa é a dicotomia entre “realpolitik” e a solidariedade
humanista. Pensando, pois, investigando retidamente os cálculos do frio metal
que operam nessas guerras, o sentimento de revolta pelas vítimas imoladas se
torna mais amplo, universal, e bem direcionado. Universal porque todas as
vítimas, as russas em Donetsk e as ucranianas em Kíev, e as iemenitas, e as sírias,
e as yanomami, todas são vítimas igualmente; e bem direcionado porque nenhum
governo, nem o russo, nem o ucraniano, nem o saudita, nem o norte-americano,
nenhum governo é digno de nosso apoio no nefasto jogo da guerra.
Agora uma palavrinha sobre
“Zelensky, herói iconopolítico”, uma pérola de requinte acadêmico. O autor é Frédéric
Bisson, jornalista e animador de rádio, além de “blogueiro culinário” nas horas
vagas. Em sua análise da atual guerra russo-ucraniana, Bisson parte do mesmo
senso comum segundo o qual esta possuiria algo de anacrônico (“shooting war”),
como um “de ja vu” de épocas passadas, o cenário da Guerra Fria, “tão
desgastado que achávamos não ser mais possível”, em suma a “discrepância
anacrônica entre esta guerra e nossos cenários possíveis e disponíveis, nossos
roteiros, nossos imaginários”. Pois o possível, diz ele, “não é apenas uma
categoria abstrata, lógico-ideal, é também uma categoria concreta do
imaginário... o tanque, o míssil são não apenas realidades locais, mas também
imagens ubíquas ‘radiantes’; uma bomba explode não apenas em Kíev ou Kharkiv,
mas em todo o mundo, em fotos”, etc. Até aqui nenhuma novidade, exceto a
novidade mesma da guerra, apenas, é claro, para quem está devidamente cercado
de privilégios ao ponto de bombas e mísseis não figurarem em seu repertório de
possibilidades; se agora, porém, a guerra volta a figurar, o que torna esse
cenário possível é justamente a imagem. É a guerra enquanto cenário, enquanto
imagem, o que define a “iconopolítica”, ou seja, a produção desses imaginários
pelos agentes envolvidos no conflito e que revelam também diferentes
estratégias e “regimes” político-midiáticos. Segundo o jornalista, “as imagens
da guerra engendradas pelo governo de Putin pertencem a um regime icônico
caduco. Pois o possível também nasce, vive e, às vezes, morre.
“É evidente que as imagens da força armada formam
um sistema com a encenação do poder russo: o presidente autoritário que entra
em cena e se senta sozinho a sua mesa; a mesa de seis metros, lacada a branco e
decorada com ouro, onde recebe Macron em 7 de fevereiro, etc. Trata-se de um
imaginário teatral, isomórfico com a guerra territorial de posições. O teatro
está ligado à unidade de lugar da cena física, assim como a guerra de invasão
está ligada à geografia do território”.
Bisson recorda o caráter teatral
da côrte imperial russa desde Pedro o Grande, quando este impôs novos códigos
de maneiras importadas da Europa e que demandaram ser aprendidas e encenadas
artificialmente. Tal encenação seria uma espécie de atributo nacional e, é
claro, devedor de um poder autocrático, idealizado por Putin, não esquecendo de
mencionar o retrato de Nicolau II no seu gabinete presidencial. “Parece óbvio
que Putin ainda se inspira no velho imperialismo russo, cujo ímpeto foi
quebrado pelo colapso da União Soviética, e também se inspira na dimensão
teatral dessa forma de poder”. Igualmente teatral por essência seria a sua
invasão, com tanques e artilharia, que performaria no presente alguma cena do
passado, e em vez de lágrimas e aplausos resulta somente num estranhamento para
quem vê essas imagens sem as poder conjugar com o universo referencial e
simbólico de nossa atualidade. Por isso, diz ele, “no final de fevereiro Putin
já havia perdido a guerra iconopolítica, [pois]... o que pode o teatro em um
mundo onde o vírus é o novo paradigma da informação, um mundo onde a imagem se
funde e é replicada em vídeos nas redes globalizadas?”
“O modelo midiático de ação política no século XXI
não é o teatro, nem mesmo o cinema, mas o streaming de televisão e, mais ainda,
o vídeo, o post, a ação direta do jornalismo cidadão. Nesse sentido, esta
guerra é talvez uma das convulsões tardias do século XX. O isolamento de Putin
no cenário internacional não se explica por uma ‘hegemonia’ econômica americana,
mas pela admonição mais difusa de um regime dominante de signos, pela aura
silenciosa do que eu chamaria de uma ‘política icônica’”.
A conseqüência Bisson tira a
seguir, ao comparar a “caduca” encenação de Putin com “a fulgurante ascensão
iconopolítica de Volodímir Zelensky”. Zelenski, recorda, é ator, comediante que
interpretava um homem comum numa série de televisão e concorreu vitoriosamente
ao cargo que ocupa desde 2019. Não somente às qualidades de ator se deve seu
sucesso e vantagem na guerra midiática, e sim a certa afinidade de sua
performance com o regime de informação mais atual, a potencialidade de “toda
uma forma global de visibilidade, da qual Zelenski é emanação e concretização
pessoal”. Pois “o cômico da ficção também passa para o real... Zelensky opõe-se
a Putin com a ironia do ícone. Icônico, está fora do alcance dos comandos que o
miram. Zelensky não é apenas o improvável adversário político de Putin,
promovido à presidência da Ucrânia por uma oportunidade eleitoral, ele é mais
do que isso: o anti-Putin, semioticamente falando, seu adversário ideal.
“Entre Zelensky e Putin ocorre uma verdadeira
batalha de atores, que reflete a luta entre aparatos midiáticos anacrônicos.
Zelensky consegue se impor como o homem do momento, federando a democratização
de seu povo, não apenas pela heróica coragem individual, mas porque sua ação
coincide com as condições de visibilidade. Por um lado, a televisão é um meio
doméstico; graças a ela, a ficção entra em nossas vidas, através de personagens
conhecidos que nos acompanham e nos educam. Assim Zelensky, presidente e chefe
de guerra, é forçado a se fazer à imagem de sua imagem, para continuar a dar
vida ao seu personagem fictício em atos e símbolos. Sua coragem vem em parte
desse duplo fictício, que ele materializa. Por outro lado, os vídeos ‘horizontais’
que Zelensky postou nas redes sociais com seu celular, desde os primeiros dias
da invasão, foram um contraponto eficaz à desinformação russa. Zelensky produz
suas próprias imagens como os ucranianos produzem suas armas improvisadas,
preparando-se para lutar contra o exército russo: ele faz seus vídeos como
coquetéis molotovs. Assim, ele é um presidente-cidadão, acusando em contraste o
ridículo anacronismo da pompa e do aparato estatal com que Putin se adorna”,
diz Bisson, e brilhantemente conclui: “A democracia não é essencialmente uma
forma de governo, é antes de tudo uma forma de vida. A maneira como trocamos,
como nos conectamos na sociedade civil, como nos informamos, como
retransmitimos e compartilhamos informações: esses são marcadores seguros da
democracia. Assim Zelensky precipita a Ucrânia em uma forma de vida
democrática, da qual a guerra é a ocasião involuntária e a cristalização”.
Ora, pompa é todo esse jargão
e requinte analítico para dar assim com a testa na parede. Então quer dizer que
a heroização de Zelenski é tão somente fruto de uma técnica “horizontal” de
informação? Zelenski promoveria uma “democracia midiática” ao usar captura de
vídeo e imagem viral a seu favor? E vai ver nós trocamos, nos informamos e
retransmitimos informações (“marcadores seguros da democracia!”) seguramente
livres de influências escusas. Esqueceu-se, é claro, de mencionar que TODO o
aparelho midiático mundial está mobilizado para vetar a transmissão de canais
russos e a ordem para isso vem lá de cima (Meta, Youtube, grandes impérios da
informação); não tem nada de democrático nisso, é a guerra abertamente
declarada em nível informacional, e os produtos disso, a orientação da opinião
e da sensibilidade, de que fazem parte a heroização de Zelenski e a demonização
de Putin, e vice e versa, são frutos calculados dessa guerra, exercício de
poder e controle absoluto da informação, tanto na Rússia como no Ocidente. O
compartilhamento “horizontal” de informações entre indivíduos é um segundo
nível de circulação apenas. Bisson parte de um modelo midiático ideal, certo
“jornalismo-cidadão” que ele equipara com ação direta, como se as informações
circulassem no meio social diretamente, quando esse processo, pelo contrário, é
sempre mediado, objeto de controle e poder. Comparar a vídeo-cam de Zelenski
com um coquetel molotov, “armas improvisadas” com que o povo ucraniano luta
contra tanques e aviões, como se o pesado tanque de guerra fosse o correlato do
velho aparato de comunicação-dominação, já caduco e ineficiente contra a arma
viral, implica em omitir toda a estrutura de poder econômico, militar e
informacional que atua nessa guerra. Definitivamente Zelenski não é um menino
palestino, não atira com estilingue; está munido com armamento de última
tecnologia, fornecimento especial das potências ocidentais.
Para nós na condição de
brasileiros esse texto talvez soe um tanto esquisito. Seu autor deveria estudar
o Bolsonaro e suas “lives” com pão na chapa e leite condensado. Nada disso é
improvisado, e por trás dessa estética existe um grande poder
militar-miliciano, e muito bem armado, que a assegura, e o mesmo aparato
televisivo-midiático, que fabrica esses líderes, e oligarcas de lá e daqui, que
os financiam. Zelenski era ator de Tv, uma espécie de comediante, mas não veio
do circo nem tocava realejo na esquina, tampouco consideraremos um salto
democrático se um dia Luciano Huck galgar a presidente. Mas em uma coisa o texto
acerta, que essa linguagem “viral” é uma tendência, e eu acrescentaria, uma
potencial arma não só de resistência como presentemente de dominação. Pensando
bem, existe algo de “viral” no script estadunidense: em vez de um
desfile de tanques e invasão declarada, infiltram-se distúrbios, treinam-se
milícias, traficam-se armas, coopta-se o judiciário, maquinam-se golpes,
financiam-se campanhas, criam-se “mitos”, e transmite-se o espetáculo. Quem
viveu as eleições presidenciais de 2018 no Brasil sabe que o curso dos
“disparos” virtuais é premeditadamente manipulado por gabinetes de inteligência
ocultos; que a arma viral-virtual foi aprendida e incorporada taticamente, de
fato com um poder de alcance maior que a usual propaganda no horário eleitoral;
que de modo algum a aparente espontaneidade desfocada de uma “live” é menos
mentirosa que o mundo colorido plástico dessas propagandas. Curiosamente, como
por um reflexo posterior sob a ressaca de toda a onda imoral de desinformação,
parte da esquerda ou do público mais crítico se reconciliou momentaneamente com
as mídias “tradicionais”, e Rede Globo ou Folha de São Paulo voltaram a gozar
de não sei que credibilidade, quando de fato a imoralidade é a mesma, mudando
somente a “forma” e o patrão. Também o discurso bolsonarista acusa esses meios
mais institucionais de veicular como algo ultrapassado e despótico, e alça sua
rede de fake-news ao patamar mais revolucionário de desobediência
civil-midiática, não como uma “rede horizontal de informação” e sim de modo
muito estudado, como uma tática militar e, presume-se, com participação de
militares. A Ucrânia viveu um golpe em 2014, nós em 2016; não seria arriscado
supor que o processo midiático lá se tornou igualmente viciado. Tudo aqui é
teatro; filmado, fotografado, acima de tudo encenado, não por ações
improvisadas, mas teatro com diretor e figurino. E teatral quer dizer: falso.
Falsa é a encenação russa, falso é Putin com seu filme demodê de Guerra Fria;
mas Zelenski não seria teatral e sim a própria coisa (a imagem em sua
manifestação mais atual) e por isso não aparentaria falsidade; a televisão
russa é uma arma de desinformação, mas a televisão para Zelenski ofereceria
apenas a “oportunidade eleitoral”, um meio democrático de ascensão (o filme da
vida do Capitão-Ucrânia: um marcador seguro de democracia!). A Tv é aqui
descrita com particular inocência, ela seria um “meio doméstico”, ambientado na
sala-de-estar e que participa de nossas vidas através de “personagens
conhecidos que nos acompanham e nos educam” e — pobre Zelenski! — o ator é apenas “forçado” a interpretar um tal
personagem... De fato, a inocência de uma novela... não é de modo algum a
Tv-corporação, ambientada, isso sim, em imperiosas mesas de negociações no alto
de edifícios de vidro, onde se sentam não personagens, mas diretores da
situação, e tomam decisões de poder. Interessante, a manutenção de uma elite
que controla os meios de informação nunca é problematizada, fala-se no “democrático”
que é o compartilhamento de vídeos caseiros por apps, mas NUNCA em democratizar
os meios de informação em si, cujo poder é erroneamente subestimado. Como se as
bombas apenas “explodissem em fotos”, a circulação midiática é descrita como um
mecanismo aleatório, “viral”. Ora, o jornalista admite que se trata de uma
batalha de atores, uma guerra entre aparatos midiáticos, mas ingenuamente
identifica, ao comparar esses aparatos, o regime atual de informação com algo
de democrático e livre; por trás desse pensamento está a crença de que o “velho
imperialismo” foi superado, e entenda-se aqui, sob a máscara de autocracia, a
sombra da URSS que paira ainda como um espectro. Afinal, tudo que nasce morre,
e em seu lugar a democracia ocidental a sucederia naturalmente. E a guerra como
exercício de poder também teria “morrido”, ou caducado, já que os países
democráticos do Ocidente, ah, esses não fazem guerra! E a “hegemonia americana”
(sic), oh, não tem nada a ver com isso, Putin perdeu a guerra por mera
incompatibilidade de signos! Como é possível tal perspicácia intelectual e
refinamento vocabular, e no entanto crer em contos de fada? Sim, super-vilão e
super-mocinho apenas se revestem aqui de um escudo teórico, mas os papéis são
os mesmos e, como num conto de fadas, saltos lógicos e omissões não contam.
Acontece que não se trata de um conto de fadas qualquer, e sim uma ladainha
muito repetida e que tem seus encantos, a muitos de nós enfeitiça. Não, essa
boa-fé no sistema instaurado releva mais que ingenuidade: uma crença infantil
na democracia burguesa.
Há a conhecida proposição
segundo a qual toda guerra perde a razão quando cai a primeira vítima. Só a
vítima, no instante da queda, e talvez o soldado, no apertar do gatilho, sabem
o que é a guerra real. Para nós não “basta ver o bombardeio” porque de fato não
o vemos, não vemos a guerra, mas somente informações a seu respeito, outro tipo
de bombardeio, um sem número de mediações entre nós e o fato. Nem as
assembléias da ONU, que afinal formam parte do espetáculo, nada é certo nessa
arena, salvo o abismo da dor humana. Logo, tudo que é discurso, tudo que é
imagem e tudo que é opinião o percebemos criticamente. Feita esta crítica, não
se deve confundir o enquadramento midiático com a dor e desespero de pessoas
que padecem agora sob a guerra; para o primeiro, nossa descrença, e para o
segundo, nossa solidariedade. Um efeito nocivo da dualidade moral imposta pelo
trato jornalístico, a obrigatoriedade de se tomar um partido ou outro e negar o
oposto e tudo que a ele se relacione, resulta ser o endurecimento do olhar: não
te permitem ter uma visão em perspectiva. Como diz a música: “E avenida em
russo quer dizer perspectiva”; assim eu penso que somente com um olhar crítico
podemos encontrar uma via de saída para esse conflito. Disto isto, traçadas
aqui estas observações distanciadas, como um panorama discursivo, é hora de nos
aproximarmos da dor humana que realmente nos importa. Por isso, reitero meu
total repúdio à guerra, em todas suas formas, por todos seus agentes e em todos
territórios em que se produza, sub quaisquer justificativas.
Nenhum apoio a nenhum governo
de nenhum país!
Toda solidariedade a todas as
vítimas de todas as guerras!
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