Genivaldo,
sobrenome Resistência
André Nogueira — junho 2022
Sobre a morte de Genivaldo, o
símbolo sinistro da viatura policial convertida em câmara de gás, já foi dito o
principal: Auschwitz é aqui. Já tínhamos visto muitas torturas e vilipêndios a
cadáver, como de Cláudia Silva Ferreira, saírem desses porta-malas de viaturas.
É que a câmara de gás dá esse sentido simbólico, embora totalmente literal,
para isto o que significa rimar polícia com fascista. É verdade que as polícias
brasileiras são hoje reduto de jovens nazistas e carecas ávidos por praticar
sua ideologia e brincar com seus brinquedinhos novos; entram para o “clube”
porque este lhes dá esses brinquedos, como viaturas, rifles, cassetetes, e até
um uniforme para chamar de seu, paga-lhes por bater e matar, e ainda lhes
oferece garantias de não serem punidos. Em resumo: se você tem uma tara por
torturar e matar, entre para a polícia! E, se for desequilibrado mental o
bastante, terá sua aprovação garantida no teste.
Existe mesmo um parentesco
entre o polícia e o adolescente estadunidense, viciado em jogos (virtuais) de
tiro, que ao ter acesso a uma arma real, num dia de surto qualquer, entra na
escola e atira nas crianças e professoras, por fim termina se matando ou atrás
das grades. Esperasse mais um pouco, prestasse o exame da polícia, e no Brasil
teria diversão garantida. A polícia brasileira é uma esponja de absorver
psicopatas e incorporá-los à máquina mortífera do Estado, e se alguém de boa fé
arriscou entrar nessa carreira, receberá o devido treinamento para se tornar
um, afinal o objetivo é esse, aberto, escancarado aos olhos da sociedade: faca
na caveira. Nesse sentido, tem aí algo mais que a voga do armamentismo e a
última moda nazi-juvenil; essa moda, essa pulsão de morte e violência numa
parcela da população que se identifica com a polícia e almeja estar lá,
encontra ali uma estrutura (seleção, treinamento, hierarquia, procedimento
padrão, etc.) projetada de tal modo a melhor acomodar o nazismo em si. E toda a
modelagem legal em torno da polícia, por exemplo a existência de um tribunal
militar, distinto do civil, onde cúmplices se anistiam mutuamente, serve para
esse fim, ou seja, não tanto proteger o policial (o indivíduo, que afinal é
mandado para matar e também morrer), não tanto o policial, e sim proteger
(legalmente) o fascismo e a manutenção de seus métodos no âmbito da
instituição. Para isso o governo fascista logo de seu empossamento pautou o “excludente
de ilicitude”, na tentativa de chancelar aquilo que extra-judicialmente é o cotidiano
do procedimento policial: tortura e pena de morte. Como se verificou, o feito de improvisar uma câmara de gás na
traseira de uma viatura é inclusive ensinado por instrutores do curso preparatório
para o exame admissional na polícia. E não é de admirar, já que a “universidade”
das modernas polícias brasileiras, a Escola das Américas, exportou esse e
outros métodos aprendidos diretamente com alemães hitleristas. Sim, o
Departamento de Inteligência dos EUA deu prosseguimento ao laboratório nazista
da tortura, e o exportou para as ditaduras sul-americanas, disseminando-o em
nosso corpo social. Não se trata de mera semelhança, mas de vínculo realmente,
parentesco entre instituições. Num país herdeiro da violência colonial, o
pau-de-arara atualizou o pelourinho, e assim já ensinavam a torturar os velhos
senhores de engenho; mas os choques elétricos, em voltagens especialmente
calculadas para torturar e não matar, ou então câmaras de gás, improvisadas em
porta-malas de viaturas, para causar uma morte “limpa”, estas novas técnicas
pertencem a uma outra “escola”, mais recente. Reunindo, nos porões do DOPS,
estas técnicas tão díspares numa só seção de suplício, as polícias brasileiras
se refundaram, renasceram, através do nazismo, para um uso cada vez mais
especializado da violência. O avanço tecnológico, que serviria em tese para
refinar o procedimento, diminuir margens de erro e evitar a violência
ostensiva, ao ser incorporado às polícias brasileiras se converte em brinquedo
de seu próprio sadismo: as bombas de gás, cuja função seria “dispersar”
multidões nas praças, envenenam, como o velho Zyklon B, um indivíduo aprisionado num porta-malas.
Não por acaso durante a Copa de 2014, quando as polícias (sob governo dos “Trabalhadores”)
ganharam todo aquele incremento para fazer a segurança da elite e reprimir o
povo nas ruas, nos meios de comunicação sutilmente substituiu-se a expressão “armamento
não-letal” por “armamento menos letal”. De certa forma esse “menos letal”
retorna agora, na imagem daquele porta-malas bufando de gás.
A cena de uma viatura,
passando na rua num dia qualquer, se coloca como um elemento cotidiano da
paisagem urbana. Até o dia em que esse “dia qualquer” se revele aquele,
em que o dedo do Destino e o gatilho do Estado impõem o cruel desfecho. Haverá quem se sinta mais seguro ao avistar uma dessas Caveiras, dobrando a
esquina de noite, brações de fora e as boinas milimetricamente mostrando as
carecas, haverá quem não sinta o mesmo frio na espinha? E esse frio na
espinha mudará em alguma coisa, agora que sabemos que cada viatura é uma câmara
de gás em potencial, e que portanto o aparelho de morte nazista está não só
disseminado como calculadamente incorporado (à “corporação”)? Note-se: a câmara de gás em que morreu Genivaldo não se armou no famoso Caveirão do Bope, departamento policial que assumidamente é um braço de extermínio, não no Caveirão, e sim no porta-malas de uma banal viatura de Polícia Rodoviária Federal. Essa máquina
mortal existe, portanto, e atualmente chama-se Estado brasileiro, movendo-se por todos seus braços e falanges. Ter consciência disso
pode tornar a vida cotidiana mais insuportável do que já é, e no entanto só
podemos suportá-la porque em alguma medida um véu de insensibilidade e
aceitação nos separa do fato mesmo. Uma pergunta recorrente se ouve sobre as
pessoas que presenciaram e filmaram a morte de Genivaldo, sem nada fazer para impedir. A resposta
costuma ser um lamento pela indiferença, a falta de empatia como a marca de
nosso tempo, ou o declínio de valores morais como honra e valentia. Nada disso.
Os valores sociais não são nem podem ser algo descolado da sociedade e a
dinâmica de suas instituições. E se essas instituições incorporam o nazismo
como parte constituinte de sua prática cotidiana, por ninguém ignorada, a
existência da tortura tende a se naturalizar no meio social, rege em parte as
leis do sistema e obriga a aceitação de um filtro social que pressupõe a
violência de Estado como um fato dado. Ironicamente, isto nos aparece com
clareza no caso de Genivaldo por ser ele um doente mental. Esquizofrênico, se
não me engano, o que não o torna nenhum maluco. Mas não por isso foi violentado,
nem por estar pilotando a moto sem capacete; o que causou a fúria da polícia
foi a rejeição de Genivaldo a ser abordado com tapas e pontapés. Não aceitar,
portanto. E, não aceitando, mostrando resistência à violência policial, foi botado numa viatura com um propulsor de bombas
químicas e morreu envenenado.
Quem sabe a doença mental de
Genivaldo antes revele algo sobre a nossa doença coletiva, pois há algo de
doentio em nossa passividade. Genivaldo não aceitou porque certos doentes
mentais não possuem o filtro que lhes permitiria manter o auto-controle, e
manter o auto-controle aqui significa aceitar ser chutado e estapeado,
controlar-se porque se sabe (têm-se a consciência) o que é a polícia, e
que a polícia é mais forte, e que o tapa faz parte da “abordagem”, e que agüentar
calado é uma tática de sobrevivência, enfim, todos esses cálculos mentais que
fazemos diante da polícia num momento de fragilidade. Para as pessoas pretas e habitantes das favelas essa prudência separa a vida e a morte; para outras,
teoricamente fora de perigo, há tantas mais manobras da consciência, para
contornar o fato e não vê-lo, mas sempre em torno dessa baliza que é o próprio
fato. Se somos capazes de calcular assim, consciente ou inconscientemente, é
porque a tortura, o próprio exercício da violência mortal por parte do Estado,
está “programada” como um fato em nossa mente, e esse fato estrutura nosso
pensamento. Por isso as pessoas filmaram, xingaram, denunciaram, mas não
intervieram, pois todas sabiam o limite técnico a não ser ultrapassado, afinal,
já que não se pode chamar em socorro a polícia, ninguém tampouco quer ser
convidado à mesma câmara de gás. Isto não significa ter aceito tal fato, a
saber, Genivaldo, aquele porta-malas, aquelas pernas de fora; não o tal fato,
mas a factualidade e talvez até a fatalidade (o fado) de que coisas assim (a
tortura) aconteçam. E não por um declínio moral, e sim, é claro, por uma brutal
coerção, e também porque esse limite compartilhado já pressupõe em si a
naturalização do fato hediondo. Genivaldo, que por sua doença mental não pôde
distinguir o fato socialmente aceito da violência, dirigida então contra ele,
em sua reação “imprudente” foi o único a tomar uma ação verdadeiramente sadia:
não aceitar. Por isso, das preliminares (tapas e pontapés) passaram à câmara de
gás, sem cerimônias e a céu aberto, em pleno dia e sem se importarem em ser
filmados. Genivaldo protestou e recebeu sua dose letal de gás. E no
entanto Genivaldo não é multidão, e no entanto porta-malas não é praça. As
pessoas que filmaram, os “sadios”, não puderam se desfazer de sua doença
coletiva, a aceitação implícita dessa violência, e evidente que sob pressão
dessa mesma violência. Mas em essência, o que nos diferencia em nossa sanidade
é a capacidade de suportar.
A resposta, no dia seguinte,
do bravo povo sergipano, mostrou que é possível organizar a indignação popular
para um ponto de rompimento com esse véu de passividade. As pessoas indignadas
fazendo recuar uma viatura policial, como registrado em vídeo no dia do
protesto, formaram o contra-símbolo mais contundente ao aprisionamento de
Genivaldo na câmara de gás. Protesto, portanto, como demonstração de força, e o
movimento organizado proporciona também certa proteção, ao menos num primeiro
momento, do coletivo contra a polícia. A revoltante morte de Genivaldo teria
nos acordado da letargia, não se apagassem com tanta facilidade, no Brasil, as
fagulhas de indignação. Há sim protestos, cada vez mais esvaziados e esparsos,
sempre que vêm à tona notícias de chacinas e torturas. As razões para a atrofia
da capacidade de se indignar podem ser várias, primeiramente vivermos hoje sob
um regime monstruosamente ameaçador. As redes sociais cumprem o papel de transferir
a revolta da ação para o discurso, e como no tele-trabalho, o protesto parece
aos poucos prescindir de um espaço físico para sua realização. E aqueles que
poderiam organizar a revolta têm outros cálculos, eleitorais, com que se
preocupar, apostando que se tudo se mantiver “em ordem” haverá uma chance de
recolocar o país num trilho democrático. Mas ao se acomodarem a essa “ordem”
ajudam a naturalizá-la em sua violência constitutiva. O proposital esvaziamento
dos protestos de rua pela esquerda partidária se justifica no perigo de que
essas demonstrações de força levem a uma escalada repressiva num país já à
beira de rasgar o véu democrático de suas instituições. Assim, reforça-se indiretamente esse véu que cobre a existência da tortura como prática institucional,
como também outros crimes, ambientais e econômicos, dignos de parar o país para
ontem. A doença de nossa passividade vem dessa naturalização; o fascismo como
prática de Estado se tornou um fato dado, pressuposto, cotidiano, em torno do
qual se arranja todo o jogo político, procurando não tocá-lo, realmente como
uma baliza fundamental. O doente mental Genivaldo pilotou a moto sem capacete e
não observou essa baliza, foi de encontro a ela e por isso morreu envenenado
numa câmara de gás. Mas não aceitar, como Genivaldo loucamente não aceitou,
deveria ser a única atitude possível diante do abominável fato da tortura. A
revolução também tem algo dessa loucura, e quem tem juízo evita essa
possibilidade. Quem sabe se, movidos por esse ímpeto, teríamos derrubado o
governo fascista antes de nos habituarmos ao fascismo? Também há outros sadios
que preferem esperar, e manobrar corretamente, para ocupar a sua vaga na
situação. E nós votaremos neles.
Resta nossa grande apatia, e a depressão cotidiana como o rebote moral. A procuradora-chefe do Ministério Público de Sergipe ainda “procura provas” para decretar a prisão dos criminosos fardados e desafia assim a própria factualidade do fato. E para completar, a Polícia Rodoviária Federal impôs sigilo de 100 anos(!) para o caso de Genivaldo e sua morte nas mãos dos soldados. Difícil saber se a pressão popular, se ela existisse, aceleraria essa “Justiça” simbioticamente ligada ao Estado e seu poder triturador de gente. Pressionar também envolve um certo cálculo, com cuidado para a rolha não estourar. Para mim ficou a imagem daquela viatura recuando sob o avanço do povo que gritava por Genivaldo e contra essa polícia de merda. Quem sabe não pressão, e sim estouro, a imprudência de um passo à frente, o rompimento de um limite a partir do qual a única resposta possível é a revolta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.