sexta-feira, 24 de junho de 2022

Genivaldo, sobrenome Resistência

 

Genivaldo, sobrenome Resistência

 

                                                           André Nogueira  junho 2022 

 

Sobre a morte de Genivaldo, o símbolo sinistro da viatura policial convertida em câmara de gás, já foi dito o principal: Auschwitz é aqui. Já tínhamos visto muitas torturas e vilipêndios a cadáver, como de Cláudia Silva Ferreira, saírem desses porta-malas de viaturas. É que a câmara de gás dá esse sentido simbólico, embora totalmente literal, para isto o que significa rimar polícia com fascista. É verdade que as polícias brasileiras são hoje reduto de jovens nazistas e carecas ávidos por praticar sua ideologia e brincar com seus brinquedinhos novos; entram para o “clube” porque este lhes dá esses brinquedos, como viaturas, rifles, cassetetes, e até um uniforme para chamar de seu, paga-lhes por bater e matar, e ainda lhes oferece garantias de não serem punidos. Em resumo: se você tem uma tara por torturar e matar, entre para a polícia! E, se for desequilibrado mental o bastante, terá sua aprovação garantida no teste.

Existe mesmo um parentesco entre o polícia e o adolescente estadunidense, viciado em jogos (virtuais) de tiro, que ao ter acesso a uma arma real, num dia de surto qualquer, entra na escola e atira nas crianças e professoras, por fim termina se matando ou atrás das grades. Esperasse mais um pouco, prestasse o exame da polícia, e no Brasil teria diversão garantida. A polícia brasileira é uma esponja de absorver psicopatas e incorporá-los à máquina mortífera do Estado, e se alguém de boa fé arriscou entrar nessa carreira, receberá o devido treinamento para se tornar um, afinal o objetivo é esse, aberto, escancarado aos olhos da sociedade: faca na caveira. Nesse sentido, tem aí algo mais que a voga do armamentismo e a última moda nazi-juvenil; essa moda, essa pulsão de morte e violência numa parcela da população que se identifica com a polícia e almeja estar lá, encontra ali uma estrutura (seleção, treinamento, hierarquia, procedimento padrão, etc.) projetada de tal modo a melhor acomodar o nazismo em si. E toda a modelagem legal em torno da polícia, por exemplo a existência de um tribunal militar, distinto do civil, onde cúmplices se anistiam mutuamente, serve para esse fim, ou seja, não tanto proteger o policial (o indivíduo, que afinal é mandado para matar e também morrer), não tanto o policial, e sim proteger (legalmente) o fascismo e a manutenção de seus métodos no âmbito da instituição. Para isso o governo fascista logo de seu empossamento pautou o “excludente de ilicitude”, na tentativa de chancelar aquilo que extra-judicialmente é o cotidiano do procedimento policial: tortura e pena de morte. Como se verificou, o feito de improvisar uma câmara de gás na traseira de uma viatura é inclusive ensinado por instrutores do curso preparatório para o exame admissional na polícia. E não é de admirar, já que a “universidade” das modernas polícias brasileiras, a Escola das Américas, exportou esse e outros métodos aprendidos diretamente com alemães hitleristas. Sim, o Departamento de Inteligência dos EUA deu prosseguimento ao laboratório nazista da tortura, e o exportou para as ditaduras sul-americanas, disseminando-o em nosso corpo social. Não se trata de mera semelhança, mas de vínculo realmente, parentesco entre instituições. Num país herdeiro da violência colonial, o pau-de-arara atualizou o pelourinho, e assim já ensinavam a torturar os velhos senhores de engenho; mas os choques elétricos, em voltagens especialmente calculadas para torturar e não matar, ou então câmaras de gás, improvisadas em porta-malas de viaturas, para causar uma morte “limpa”, estas novas técnicas pertencem a uma outra “escola”, mais recente. Reunindo, nos porões do DOPS, estas técnicas tão díspares numa só seção de suplício, as polícias brasileiras se refundaram, renasceram, através do nazismo, para um uso cada vez mais especializado da violência. O avanço tecnológico, que serviria em tese para refinar o procedimento, diminuir margens de erro e evitar a violência ostensiva, ao ser incorporado às polícias brasileiras se converte em brinquedo de seu próprio sadismo: as bombas de gás, cuja função seria “dispersar” multidões nas praças, envenenam, como o velho Zyklon B, um indivíduo aprisionado num porta-malas. Não por acaso durante a Copa de 2014, quando as polícias (sob governo dos “Trabalhadores”) ganharam todo aquele incremento para fazer a segurança da elite e reprimir o povo nas ruas, nos meios de comunicação sutilmente substituiu-se a expressão “armamento não-letal” por “armamento menos letal”. De certa forma esse “menos letal” retorna agora, na imagem daquele porta-malas bufando de gás.

A cena de uma viatura, passando na rua num dia qualquer, se coloca como um elemento cotidiano da paisagem urbana. Até o dia em que esse “dia qualquer” se revele aquele, em que o dedo do Destino e o gatilho do Estado impõem o cruel desfecho. Haverá quem se sinta mais seguro ao avistar uma dessas Caveiras, dobrando a esquina de noite, brações de fora e as boinas milimetricamente mostrando as carecas, haverá quem não sinta o mesmo frio na espinha? E esse frio na espinha mudará em alguma coisa, agora que sabemos que cada viatura é uma câmara de gás em potencial, e que portanto o aparelho de morte nazista está não só disseminado como calculadamente incorporado (à “corporação”)? Note-se: a câmara de gás em que morreu Genivaldo não se armou no famoso Caveirão do Bope, departamento policial que assumidamente é um braço de extermínio, não no Caveirão, e sim no porta-malas de uma banal viatura de Polícia Rodoviária Federal. Essa máquina mortal existe, portanto, e atualmente chama-se Estado brasileiro, movendo-se por todos seus braços e falanges. Ter consciência disso pode tornar a vida cotidiana mais insuportável do que já é, e no entanto só podemos suportá-la porque em alguma medida um véu de insensibilidade e aceitação nos separa do fato mesmo. Uma pergunta recorrente se ouve sobre as pessoas que presenciaram e filmaram a morte de Genivaldo, sem nada fazer para impedir. A resposta costuma ser um lamento pela indiferença, a falta de empatia como a marca de nosso tempo, ou o declínio de valores morais como honra e valentia. Nada disso. Os valores sociais não são nem podem ser algo descolado da sociedade e a dinâmica de suas instituições. E se essas instituições incorporam o nazismo como parte constituinte de sua prática cotidiana, por ninguém ignorada, a existência da tortura tende a se naturalizar no meio social, rege em parte as leis do sistema e obriga a aceitação de um filtro social que pressupõe a violência de Estado como um fato dado. Ironicamente, isto nos aparece com clareza no caso de Genivaldo por ser ele um doente mental. Esquizofrênico, se não me engano, o que não o torna nenhum maluco. Mas não por isso foi violentado, nem por estar pilotando a moto sem capacete; o que causou a fúria da polícia foi a rejeição de Genivaldo a ser abordado com tapas e pontapés. Não aceitar, portanto. E, não aceitando, mostrando resistência à violência policial, foi botado numa viatura com um propulsor de bombas químicas e morreu envenenado.

Quem sabe a doença mental de Genivaldo antes revele algo sobre a nossa doença coletiva, pois há algo de doentio em nossa passividade. Genivaldo não aceitou porque certos doentes mentais não possuem o filtro que lhes permitiria manter o auto-controle, e manter o auto-controle aqui significa aceitar ser chutado e estapeado, controlar-se porque se sabe (têm-se a consciência) o que é a polícia, e que a polícia é mais forte, e que o tapa faz parte da “abordagem”, e que agüentar calado é uma tática de sobrevivência, enfim, todos esses cálculos mentais que fazemos diante da polícia num momento de fragilidade. Para as pessoas pretas e habitantes das favelas essa prudência separa a vida e a morte; para outras, teoricamente fora de perigo, há tantas mais manobras da consciência, para contornar o fato e não vê-lo, mas sempre em torno dessa baliza que é o próprio fato. Se somos capazes de calcular assim, consciente ou inconscientemente, é porque a tortura, o próprio exercício da violência mortal por parte do Estado, está “programada” como um fato em nossa mente, e esse fato estrutura nosso pensamento. Por isso as pessoas filmaram, xingaram, denunciaram, mas não intervieram, pois todas sabiam o limite técnico a não ser ultrapassado, afinal, já que não se pode chamar em socorro a polícia, ninguém tampouco quer ser convidado à mesma câmara de gás. Isto não significa ter aceito tal fato, a saber, Genivaldo, aquele porta-malas, aquelas pernas de fora; não o tal fato, mas a factualidade e talvez até a fatalidade (o fado) de que coisas assim (a tortura) aconteçam. E não por um declínio moral, e sim, é claro, por uma brutal coerção, e também porque esse limite compartilhado já pressupõe em si a naturalização do fato hediondo. Genivaldo, que por sua doença mental não pôde distinguir o fato socialmente aceito da violência, dirigida então contra ele, em sua reação “imprudente” foi o único a tomar uma ação verdadeiramente sadia: não aceitar. Por isso, das preliminares (tapas e pontapés) passaram à câmara de gás, sem cerimônias e a céu aberto, em pleno dia e sem se importarem em ser filmados. Genivaldo protestou e recebeu sua dose letal de gás. E no entanto Genivaldo não é multidão, e no entanto porta-malas não é praça. As pessoas que filmaram, os “sadios”, não puderam se desfazer de sua doença coletiva, a aceitação implícita dessa violência, e evidente que sob pressão dessa mesma violência. Mas em essência, o que nos diferencia em nossa sanidade é a capacidade de suportar.

A resposta, no dia seguinte, do bravo povo sergipano, mostrou que é possível organizar a indignação popular para um ponto de rompimento com esse véu de passividade. As pessoas indignadas fazendo recuar uma viatura policial, como registrado em vídeo no dia do protesto, formaram o contra-símbolo mais contundente ao aprisionamento de Genivaldo na câmara de gás. Protesto, portanto, como demonstração de força, e o movimento organizado proporciona também certa proteção, ao menos num primeiro momento, do coletivo contra a polícia. A revoltante morte de Genivaldo teria nos acordado da letargia, não se apagassem com tanta facilidade, no Brasil, as fagulhas de indignação. Há sim protestos, cada vez mais esvaziados e esparsos, sempre que vêm à tona notícias de chacinas e torturas. As razões para a atrofia da capacidade de se indignar podem ser várias, primeiramente vivermos hoje sob um regime monstruosamente ameaçador. As redes sociais cumprem o papel de transferir a revolta da ação para o discurso, e como no tele-trabalho, o protesto parece aos poucos prescindir de um espaço físico para sua realização. E aqueles que poderiam organizar a revolta têm outros cálculos, eleitorais, com que se preocupar, apostando que se tudo se mantiver “em ordem” haverá uma chance de recolocar o país num trilho democrático. Mas ao se acomodarem a essa “ordem” ajudam a naturalizá-la em sua violência constitutiva. O proposital esvaziamento dos protestos de rua pela esquerda partidária se justifica no perigo de que essas demonstrações de força levem a uma escalada repressiva num país já à beira de rasgar o véu democrático de suas instituições. Assim, reforça-se indiretamente esse véu que cobre a existência da tortura como prática institucional, como também outros crimes, ambientais e econômicos, dignos de parar o país para ontem. A doença de nossa passividade vem dessa naturalização; o fascismo como prática de Estado se tornou um fato dado, pressuposto, cotidiano, em torno do qual se arranja todo o jogo político, procurando não tocá-lo, realmente como uma baliza fundamental. O doente mental Genivaldo pilotou a moto sem capacete e não observou essa baliza, foi de encontro a ela e por isso morreu envenenado numa câmara de gás. Mas não aceitar, como Genivaldo loucamente não aceitou, deveria ser a única atitude possível diante do abominável fato da tortura. A revolução também tem algo dessa loucura, e quem tem juízo evita essa possibilidade. Quem sabe se, movidos por esse ímpeto, teríamos derrubado o governo fascista antes de nos habituarmos ao fascismo? Também há outros sadios que preferem esperar, e manobrar corretamente, para ocupar a sua vaga na situação. E nós votaremos neles.

Resta nossa grande apatia, e a depressão cotidiana como o rebote moral. A procuradora-chefe do Ministério Público de Sergipe ainda “procura provas” para decretar a prisão dos criminosos fardados e desafia assim a própria factualidade do fato. E para completar, a Polícia Rodoviária Federal impôs sigilo de 100 anos(!) para o caso de Genivaldo e sua morte nas mãos dos soldados. Difícil saber se a pressão popular, se ela existisse, aceleraria essa “Justiça” simbioticamente ligada ao Estado e seu poder triturador de gente. Pressionar também envolve um certo cálculo, com cuidado para a rolha não estourar. Para mim ficou a imagem daquela viatura recuando sob o avanço do povo que gritava por Genivaldo e contra essa polícia de merda. Quem sabe não pressão, e sim estouro, a imprudência de um passo à frente, o rompimento de um limite a partir do qual a única resposta possível é a revolta.

 

“A Rússia está errada”, diz Cidadão-Kane


“A Rússia está errada”, diz Cidadão-Kane 

       

                           André Nogueira março 2022

 

Atenção: o texto abaixo não é sobre a guerra na Ucrânia, a qual eu repudio, como a todas as guerras, com todas as minhas forças. Mais do que nunca está claro como a guerra é abjeta e não combina com o mundo que a gente quer. Lamento e me solidarizo com o povo ucraniano, vítima de uma invasão injustificável, com o povo russo oprimido por seu próprio governo, meus amigos com parentes na Rússia ou na Ucrânia, a quem no mais íntimo essa guerra atingiu. Nós aqui não conhecemos essa guerra, e no entanto muitos têm dela uma opinião. Arriscando incorrer no clichê filológico, por esses dias me vi pensando em “pólemos”, que em grego antigo significa guerra e de onde vem a nossa palavra “polêmica”. Tenho observado essa outra guerra, de opinião, não só da minha com a sua, do padeiro com o motorista, do professor com o verdureiro. O bombardeio midiático está no controle de agentes tão poderosos quanto os Estados beligerantes, senão deles mesmos, para quem as nossas mentes são territórios em disputa. De fato já podemos dizer que a III Guerra Mundial está instaurada no plano da informação. E é no plano da informação que melhor se entrevê o limite da frágil máscara democrática sob a qual se apresentam os governos liberais. Todo o aparelho comunicativo está ao dispor dos oligopólios daqui como de lá, rádio e Tv continuam sendo, para uns e para outros, não veículos de comunicação, e sim armamento pesado. Nunca se realizou, em nenhuma das nossas democracias, uma real democratização desse aparelho, o que nos permitiria, senão um maior entendimento mútuo, um debate minimamente horizontal por posições ideológicas. E mesmo assim, enquanto nos digladiamos uns aos outros, esquecemos que nos separar sempre foi o maior objetivo dos dominadores.

Lembro do saudoso prof. Roberto Romano, ao citar (se não me engano) Erich Auerbach, uma comparação do noticiário com o teatro: o noticiário ilumina a cena parcialmente como um holofote e ao restante mantém no escuro, dando o enquadramento desejado, mas a realidade de um fato, suas causas e circunstâncias, só poderia ser descoberta se as luzes do palco se acendessem em todos os ângulos, iluminando o evento por inteiro. A conhecida charge em que o foco de luz faz confundir esfaqueador e esfaqueado vem a calhar, apenas que ambos, nesta “guerra de agressão”, agressor e agredido estão armados até os dentes, e armados também outros agentes invisíveis, que operam no fundo escuro, e sem excluir a arma talvez mais importante, que é a própria câmera e seu foco na conquista de uma posição ideológica. Como é sabido, e ficou mais uma vez comprovado com a prisão de Marina Ovsiánnikova por seu protesto ao vivo no Primeiro Canal moscovita, a televisão russa é um meio de propaganda governamental, sem espaço para o contraditório, e desafiar a censura naquele país pode ter um custo muito alto. É a ditadura de lá exposta na sua crueza. Porém essa lembrança das aulas de filosofia me veio ao testemunhar esses dias em que no mundo inteiro se censuram e tiram do ar os canais russos de televisão em todas as plataformas, além de documentários e outros materiais jornalísticos críticos ao golpe ucraniano de 2014, ou voltados à questão humanitária em Donbass, etc. É sintomático como o Ocidente inteiro reagiu, a reboque das grandes plataformas Meta, Youtube, etc., sob o clamor das potências mundiais, para impor uma visão unilateral dos eventos também por meio de censura, da exclusão do contrário e atentando contra o princípio mais caro de sua tão defendida e na realidade frágil “democracia”. Notícia tendenciosa por notícia tendenciosa, o espectador não pode mais comparar ângulos diferentes de um mesmo conflito, criticamente, sabendo que ambos os lados veiculam não o fato, mas o reflexo nesse fato de seus próprios interesses. E ao se deparar com a narrativa única (infinitamente repetida até que se torne uma verdade) o espectador minimamente crítico sabe que a notícia se converteu, também aqui, em propaganda. E, se propaganda, seja o que seja, não é confiável. Ambos lados da guerra informacional impõem a unanimidade como uma lei. E se desfiar essa lei entre nós não custa uns anos na cadeia, tampouco há o lugar, a arena de debate para lançar o desafio. É interessante notar que na Rússia tecnicamente a televisão está sob controle do Estado autoritário; no Brasil, sob controle do mercado; mas o resultado é o mesmo: informação altamente controlada, ausência de uma liberdade factual. 

Em nosso teatro mundial encena-se agora um pastiche do enredo norte-americano em que o vilão ou o diabo por puro sadismo ameaça dominar o mundo e deve ser contido por um mocinho super-herói defensor da democracia. A compreensão dos eventos se reduz ao esquema dualista, com música melodramática e apelando, como nos filmes, às emoções, ao medo, ao instinto de sobrevivência, e nunca a uma análise histórica e material dos eventos. Não por acaso a resposta imediata que se tem é o ódio, justificado ou não, por tudo que lembre a face do vilão, ou a face do mal, a saber, qualquer nome terminado em “óvski”, o cancelamento a-crítico e indiscriminado sem dúvida aprendido no ambiente moralizador das redes sociais. Mas em geral o mais conveniente é se pessoalizar o debate, afirmando que esta é “a guerra de Putin, a guerra de um homem só”, como se a vontade de um ditador se impusesse sozinha, e evitando olhar para o fato em sua complexidade, para os mecanismos das relações entre os países, para os conflitos de interesse que, se investigados, acabariam por espirrar em direções indesejáveis. A radical simplificação se completa com a patologização psíquica do adversário: Putin seria um “louco”, um descontrolado no controle de um arsenal nuclear. E a principal característica de um louco, sabemos, é não ter razão. De outro lado, por essa mesma dualidade infantil, assistimos a fabricação de um herói: “Zelenski se tornou uma figura que inspira pessoas no mundo todo”, disse Yuval Harari para a Tv Globo, “até meus sobrinhos nas redes sociais têm figurinhas de Zelenski tipo super-herói: o Capitão Ucrânia!”, e ressalta que tal título a ele é conferido “por sua bravura”, em nenhum momento lançando um olhar crítico para o aparelho que produz essas representações. Desta heroização não escapam nem artigos de rebuscado interesse acadêmico, como “Zelensky, herói iconopolítico”, de Frédéric Bisson, de que falaremos adiante. 

De modo geral é muito fácil invocar esse “diabo” e o herói que o completa, pois o esquema dual está posto, e nunca foi superado, desde a educação dos sentidos pela Guerra Fria. Por exemplo, por que foi tão fácil, no Brasil, depor uma presidenta do Partido dos Trabalhadores e re-avivar o discurso de intervenção militar? Simples, porque isso a ditadura nos ensinou, seguindo o roteiro do golpismo estadunidense, que contra a “ameaça vermelha” a receita é o militarismo, o recrudescimento, a privação de direitos e liberdades, etc. Possivelmente a direita “moderada”, perdedora das eleições de 2014, pretendeu usar o discurso anti-comunista, enraizado nas bases culturais do país pós-ditadura, para se restabelecer no jogo político, mas na eleição seguinte o apelo popular invariavelmente descambou para o militarismo mais grosseiro e autoritário, ressuscitando velhos ídolos dos porões do DOPS, pois este é o complemento necessário do teatro dicotômico da Guerra Fria. Do mesmo modo hoje, a nível mundial, o mundo está disposto a transpor o cortinado mambembe da democracia liberal rumo ao autoritarismo desnudado para se opor a esse grande Outro-autoritário que se levanta das estepes. O inimigo é esse outro, o árabe, o russo, o chinês, (“oriental”) e quanto maior a distância cultural mais cola a pecha de “louco”, “extremista”, etc. Passados trinta anos, a Guerra Fria parece novamente esquentar, e essa mentalidade volta à tona com mais força, mas de fato ela tem sido alimentada por todo esse tempo, afinal, o rótulo de comunista está sempre ali de pretexto para se massacrar trabalhadores em qualquer país. Nós, quintais dos EUA, não só engolimos sua propaganda hollywoodiana como temos as botas deles marcadas em nossas costas, porque nos ensinaram bem, nesses mesmos porões, a concordar com tudo o que nos disserem. Um exemplo de mentalidade colonizada: o “especialista em relações internacionais” Leonardo Trevisan aparece na Tv citando Nixon: “é preciso colocar uma cunha para separar Rússia e China”, argumentando que uma aproximação entre os dois países seria “muito preocupante para nós”, e acrescenta: “para nós, digo, o Ocidente”. Interessante que “Ocidente”, aqui, significa tão somente Casa Branca, e “preocupante” quer dizer: para a manutenção dos interesses econômicos da Casa Branca; e é sintomático que isto seja reduzido ao pronome “nós”.    

Sem entrar nos deméritos da famigerada OTAN, é claro que esta corporação se consolidou na Europa como uma proteção contra a suposta “ameaça” de um avanço da URSS para oeste. Com a invasão russa da Ucrânia essa paranóia é conscientemente reavivada, Joe Biden chegou a dizer e repetir que o objetivo de Putin é restabelecer a URSS, afirmação que não se sustenta ideologicamente, mas talvez territorialmente, se a guerra resultar numa expansão, a retomada de uma pretensão imperialista oriental. Enquanto isso, a OTAN há anos vem se expandindo para leste, já não como uma barreira defensiva, e de modo algum isso é visto como uma “agressão” ou rompimento de limites. A última vez que bases militares americanas chegaram tão perto, instalando mísseis na Turquia, quase se precipitou a guerra nuclear, durante a Crise de 1962. E agora Putin blefa, avisando que seu aparato nuclear está em alerta, e Biden ao dizer que a menor agressão russa a um Estado membro da OTAN será a III Guerra. Enquanto o imaginário da Guerra Fria volta a atuar, sobressaem no mapa as áreas marcadas, variações do mesmo jogo que gostam os ianques malditos de brincar, fazendo do mundo seu tabuleiro de poder. Alguns países, na América Latina e em África, eles dominam financiando golpes; outros, no Oriente Médio, invadindo com força armada sob pretexto de “combate ao terrorismo”; e outros, na Europa, “protegendo-os” e formando uma liga: a OTAN. A Ucrânia, pelo visto, também é um quadrado no tabuleiro, e a diferença essencial entre a agressão russa e a investida dessa liga é a escolha do método pelo qual o imperialismo de lá ou daqui tenta marcar esse território. A liga das nações dá a pauta para o debate na Assembléia da ONU e se ratificam as exigências estadunidenses: também aqui é um bloco em ação. As medidas punitivas, quer dizer, as “sanções”, aplicadas contra a Rússia, seriam em tese uma tentativa de sua pacificação por sufocamento econômico, tecnicamente uma manobra de guerra. Paulo Arantes, falando sobre o bloqueio dos EUA a Cuba durante a crise dos mísseis em 1962, lembra que o governo norte-americano, nos comunicados oficiais, evitou usar a palavra “bloqueio”, substituindo-a por “quarentena”, isso porque “bloqueio é sinônimo de declaração de guerra... desde a Guerra do Peloponeso, bloquear uma cidade, um porto, equivale a declarar guerra”. O mesmo se poderia dizer de um bloqueio bancário mundial a um país?  

Dizem agora que “desde Aristóteles” a pior falácia é opor o argumento “mas e...”, a saber: “mas e o outro?” (mas e os EUA? mas e a guerra no Iraque?), que isto seria uma espécie de consciência infantil, como de uma criança brigando com a outra por um chocolate. Compreendem assim porque muitos que hoje interpõem o questionamento sobre a chamada “indignação seletiva” o fazem também dicotomicamente ao assumir para si um lado; com isso, o questionamento é recebido de maneira igualmente infantil. No entanto, mais falacioso é reduzir o argumento ao absurdo, como se a proposta de um contraponto comparativo fizesse desmerecer ou diminuir a dor presente; pelo contrário, adquirir uma visão em perspectiva, iluminando o fundo escuro, é a condição para que nenhuma dor seja nunca diminuída, ou nem percebida, no âmbito do debate público. É possível não sentar na gangorra lógica do “isto ou aquilo”, não se deixando contaminar pelo ambiente mental estéril da digladiação mútua, nem por enredos de vilões e super-heróis, e ao mesmo tempo não se isentando de tomar sim um lado, o lado certo, afinal quem ama verdadeiramente a paz sabe que não é este ou aquele Estado nacional que a vai garantir, nem tampouco um liga de nações imperialistas com longo histórico genocida. A verdadeira paz provirá da solidariedade universal entre os povos, e as atuais resoluções da ONU de modo algum falam sobre isso; nelas transparece, antes, o poder de uns Estados sobre outros, uns que dão a pauta e outros que acatam. Se faço contrapontos críticos, ao apontar certa “seletividade” na guerra de informação, não me refiro entretanto à indignação que cada um de nós, com toda razão, sente no seu íntimo ou manifesta publicamente em resposta à guerra material. O objetivo não é moralizar ou dessensibilizar o debate mas, isto sim, perceber como as cartas desse debate são dadas por grandes agentes que de algum modo participam do conflito ou têm nele interesse, e como a nossa justa indignação é conduzida, de acordo com esses interesses, para uma raia improdutiva.

A entrevista de Paulo Arantes (para o Projeto Bons Dias Brasil, 15 de março 2022) nos dá uma dimensão do problema da atual guerra na Ucrânia em sua relação com a Guerra Fria nunca superada e insuperável, enquanto houver armas nucleares. De fato o impacto que a atual guerra tem para a percepção histórica advém do perigo nuclear de um confronto entre as duas potências, EUA e Rússia. Arantes nesta bela entrevista (uma das únicas recentes que valeu a pena ver) comete somente um pecado, na minha opinião, ao afirmar que a presente guerra surpreende por ser um retorno inesperado da “shooting war”, ou seja, guerra de tiro, que “o mundo já não via isso acontecer: tiro de metralhadoras, tanques entrando nas cidades”, etc. Ora, certo que não se invadiu o Iraque ou o Afeganistão com flores, nem tão somente com armas “inteligentes” guiadas por drones que atingem seus alvos “cirurgicamente”. O mesmo contra-senso diz o “historiador” best seller Yuval Harari em (esta um lixo de) entrevista que concedeu ao Fantástico em 6 de março: “vivemos um período de paz duradoura”, ele diz, “desde 1945 que um país reconhecido internacionalmente não é conquistado e varrido do mapa por um vizinho mais forte, até a II guerra essa sempre foi a norma, mas tinha deixado de ser... até Putin invadir a Ucrânia”. Ora, Harari é israelense e vive em Israel, decerto ele vê o que acontece sob seu próprio nariz, inclusive esse “reconhecido internacionalmente” (ele brande o dedinho ao dizer, como se asseverasse a condição) é malicioso. Mas não é a única condição maliciosa da proposição, temos também o termo de vizinhança, como se guerra fosse apenas um recurso de expansão territorial (como em Israel) e significassem uma agressão menor as guerras de predação, como faz os EUA, cruzando a outros continentes para pilhar o seu petróleo.

A guerra na Ucrânia, portanto, além do terrível sofrimento humano, tem peculiaridades que a tornam especialmente preocupante, e no entanto há certa invisibilização de outras guerras, igualmente ou mais terríveis, uma tendência a empurrá-las para uma categoria menor, algo que do ponto de vista técnico já é problemático, mas simplesmente injustificável no tocante ao sofrimento humano em outras regiões do globo. E se pertencem a uma categoria menor, naturalmente não deveriam implicar medidas tão firmes quanto as que se tomam agora para conter a agressão russa. O componente racista dessa invisibilização é um lugar comum, não só porque ao longo de todos esses anos Iêmen, Síria, Iraque, Líbia, Afeganistão, etc., não mereceram tal mobilização mundial pela paz. A discriminação no trato com os refugiados continua a ser uma chaga moral da Europa. É paradoxal porque o primeiro facho de luz faz ver a extensão da treva, e a atual união das nações pela paz só revela o quanto elas na realidade estão habituadas e não se incomodam com a guerra, desde que estoure no sul do mundo, e melhor se o petróleo jorrar e cair diamante nos bancos suíços. Do mesmo modo, só agora levantam-se das cadeiras pelos direitos da pessoa humana, mostrando que, para eles, esses direitos não importavam como importam agora, ou talvez as pessoas pareçam, para eles, humanas em diferentes graus. Na realidade, a razão por que os países europeus estão em polvorosa não é o perigo de que a guerra se espalhe pelo mundo, e sim que a guerra que com sua anuência corre o mundo venha a estourar na sua vizinhança próxima, no sagrado solo europeu. Não pela paz, só preocupação consigo mesmos. O premiê do Paquistão Imran Khan, pressionado pela ONU a aderir às resoluções contra a Rússia, respondeu assim:

“Foi o Paquistão quem ajudou a OTAN na guerra contra o Terror, nós fomos seus aliados. E qual nossa recompensa? 80 mil paquistaneses perderam a vida, nossas áreas tribais foram completamente arrasadas e 3 milhões e meio de pessoas deslocadas, nosso país perdeu mais de U$100 bilhões, e eu gostaria de perguntar ao embaixador da União Européia se ele nos disse ao menos ‘obrigado’. O senhor valorizou nosso apoio a vocês? Vocês nos apreciaram em sua guerra? As perdas humanas totais da OTAN foram menos de 10% das nossas 80 mil, e mesmo assim, em vez de valorizarem nosso sacrifício, muitos de vocês nos culpam de sua falha no Afeganistão. Em segundo lugar, algum de vocês cortou laços diplomáticos com a Índia quando ela violou o direito internacional e a resolução CS da ONU sobre a Caxemira, encerrando seu status especial? Vocês a criticaram? Encerraram o comércio com a Índia? O que vocês acham de nós? Somos lá seus escravos para seguir suas ordens de qualquer jeito?”

Talvez o questionamento sobre a “indignação seletiva” não seja só um recurso retórico de quem comenta na internet e sim uma reclamação factual vinda de regiões atingidas pela guerra e menos “valorizadas” em sua dor. Num outro curioso exemplo, novamente Leonardo Trevisan, quando perguntado sobre por quê a maioria das abstenções na ONU em relação às sanções provinha da África central, respondeu apenas que esses países “estão sob a influência da China” e a seguiram na escolha por se abster; não considera, primeiro, que a escolha mundial quase unânime pelas sanções expressa também uma área de influência, hegemônica, e uma forma não menos eficaz de pressão, e segundo, que muitos desses países africanos estão em guerra presentemente ou, em razão de sua própria catástrofe, têm mais coisas com que se preocupar em lugar das sanções contra a Rússia. Outra falácia, além de encerrar as guerras no sul do mundo numa categoria supostamente menos violenta, o que definitivamente não são, é pressupor um deslocamento temporal, como se alguém, ao acusar a dita “indignação seletiva”, sacasse exemplos de guerras passadas que não receberam o mesmo tratamento e com isso procurasse diminuir a guerra presente na Europa, que realmente importa agora. Na realidade, são guerras que acontecem nesse momento (Iêmen, Etiópia, Síria, etc.), golpes de Estado violentos que ocorreram este ano ou ano passado e concorrem para guerras civis (Burkina Faso, Mali, Guiné, em nosso continente o Haiti, etc.) e que poderiam ser incluídos na pauta, no manifesto da ONU pela paz, ou se poderia arranjar um espaço no noticiário para esses países que muitos no “primeiro mundo” nem nunca ouviram falar. Moçambique vive uma guerra nas províncias do norte, onde rebeldes jihadistas promovem decapitações e saques, e não sabemos sobre isso porque não há espaço nos noticiários; mesmo, portanto, entre países de uma mesma comunidade lingüística, não se estreitam laços solidários. Nas relações entre países os únicos “laços” são de interesse, encobertos por um manto de solidariedade, para serem apertados ou afrouxados de acordo com as riquezas que se possam extrair. 

Naturalmente a fala de Imran Khan expressa também um blefe e interesse específico. Imran em seu país é mais um de uma seqüencia autoritária de chefes de Estado; ele é famoso por ter instituído a pena capital contra o “pecado da blasfêmia” para qualquer associação indevida ao nome de Maomé, e também muito mal visto por seus ataques ao movimento feminista e mulheres em geral. Não melhor é o presidente da Índia, Narendra Modi, adepto de uma espécie de fascismo à indiana e cujo maior ídolo de culto, ressuscitado por um sem número de estátuas e celebrações cívicas, é Nathuram Godse, nacionalista hindu que em 1948 assassinou Mahatma Gandhi a tiros. Rasgou-se assim a proposta de Gandhi de uma coexistência pacífica entre as religiões, embora Modi se faça passar por um iogue espiritualizado. Promulgando leis que restringem direitos da minoria muçulmana no país, o governo da Índia protagoniza ações violentas, como demolições de mesquitas históricas, ataques a tiros de milícias a universidades islâmicas, e agora, com a anexação em 2019 da Caxemira, área autônoma de maioria muçulmana, impõe dificuldades para essa população no âmbito de um novo registro civil, que visa desprover da cidadania indiana e deportar parte da população, “desmuçulmanizando” a área (inclusive é reportada a construção de campos de concentração destinados para esse fim). É, portanto, mentira que não existem ações expansionistas de uns países sobre outros, como afirma Harari, ou sobre territórios indefinidos em decorrência de guerras, e não por acaso a Caxemira tem sido apontada (por exemplo, em artigo de Fábio Luis Barbosa Santos) como a “Palestina do Estado indiano”. Não é que não existam, apenas não se dá visibilidade a estes conflitos no âmbito da Comunidade Internacional, que nada faz para evitar o genocídio e a ascensão do fascismo nestas áreas. As guerras do Ocidente nesses territórios, desde a ocupação e exploração colonial, apenas reforçaram os despotismos locais, e se Imran ou Modi hoje são presidentes é porque toda ação gera uma reação. Interessante que Imran não era o governante do Paquistão no tempo da guerra estadunidense contra o Afeganistão, e diz: “se fosse eu [a presidir o governo], jamais teria lançado meu país nessa loucura”; e podemos dizer que o inverso seria verdadeiro: não tivesse o governante anterior cedido aos EUA na “loucura” da caça ao Bin Laden (morto no Paquistão), Imran não seria premiê. Além disso, já que a Caxemira é uma Palestina, a Palestina decerto será uma Caxemira; perguntaríamos então ao senhor Harari por que não se impõem sanções ao Estado assassino de Israel quando este bombardeia Gaza, destroçando meninos palestinos. Devo rir ou chorar com o pronunciamento da representante israelense na ONU “pela paz”? Legítimo me parece o boicote à Rússia pela banda Pink Floyd na pessoa de Roger Waters, que desde sempre encampa, em vão, um movimento de boicote mundial a Israel. E nem ao Caetano Veloso conseguiu convencer, quanto menos aos ilustres integrantes da ONU! Definitivamente, as nações espoliadas estão sozinhas, não se olha por elas e não é por acaso; existe aqui um elemento de culpa não assumido dos europeus pelas ex-colônias, as paisagens de devastação que eles mesmos causaram e não querem encarar de frente.

Mas o caso vai além, quer dizer, para a “colonização” econômica no tempo presente. Por que razão, por exemplo, os países ricos, sempre engajados na defesa da Amazônia, não impõem “sanções” contra empresas flagrantemente criminosas para com o meio ambiente amazônico, como a mineradora norueguesa Hydro ou o banco canadense Forbes & Manhattan? O governo da Noruega concede uma bolsa milionária para iniciativas de preservação ambiental na Amazônia e investe três vezes mais milhões em mineradoras com “dutos clandestinos” que emporcalharam as nascentes do rio Muripi. Já a refinadora de ouro italiana Chimet lucrou 18 bilhões, seu maior montante da história, com o ouro traficado do garimpo ilegal na Terra Indígena Kayapó. Não seria mais eficiente, em vez de “conceder” sua benevolência financeira, sancionar, bloquear, embargar as contas bancárias dessas empresas? Não, a liga das nações nunca vai tomar uma atitude efetiva contra essas guerras e devastações simplesmente porque eles (o “primeiro mundo”) têm culpa no cartório e não podem sancionar a si mesmos. Sua benevolência é uma mínima fração desse mesmo ouro roubado. Outro dia assisti um documentário da Deutsche Welle sobre a extração ilegal de ouro nas Filipinas; o filme acompanha o processo desde o garimpeiro miserável até o traficante filipino mais bem sucedido, mas não entra no mérito de onde esse ouro vai parar no fim das contas. Segundo o sábio Harari, se além das sanções os governos investirem rapidamente em “energias verdes” a ponto de baixar o valor do petróleo russo, “seria o fim de Putin, e de quebra resolveríamos o problema das mudanças climáticas!” É isto o que representa o meio ambiente, “um bônus”, ele mesmo diz, na tabelinha dos cálculos de guerra. Fácil, portanto, é sancionar o outro, no caso a Rússia, e representar nela o mal planetário, de acordo com interesses estritamente estratégicos e econômicos que nada têm a ver com a paz ou o “clima”.

A propósito, as redes de gasodutos Nord Stream, gigantesco empreendimento russo para abastecimento de gás natural, que da Alemanha é distribuído a outros países europeus, desde a construção da primeira rede (Nord Stream 1) acarretou uma forte pressão do governo estadunidense para que esses países “busquem outras alternativas” e não dependam do fornecimento russo. Durante a construção de Nord Stream 2 “o presidente Donald Trump chegou, em 2018, a anunciar sanções a todo indivíduo ou entidade envolvida no projeto, o que fez com que cerca de 18 empresas européias, incluindo a alemã Wintershall, desistissem de patrocinar a construção da nova linha”. O argumento parece ser de natureza estratégica, por temor de que “o governo russo possa usar o fornecimento de gás como ‘ferramenta de persuasão e pressão em disputas com o Ocidente’”, mas o real interesse é tão somente econômico. De fato a tentativa de Trump terá sido o ensaio das sanções que se impõem agora e que incluem fechar as torneiras dos gasodutos russos. Ao mesmo tempo, sabe-se que o atual presidente norte-americano Joe Biden tem negócios a zelar na Ucrânia, negócios inclusive familiares: seu próprio filho Hunter Biden integra o conselho administrativo da Burisma, empresa ucraniana de gás natural. Esse fato veio a tona em 2019, quando Joe Biden era candidato, mas realmente o aperto de mão entre a família Biden e os oligarcas do gás ucraniano aconteceu no fatídico ano de 2014; Biden-pai teria usado sua influência como vice-presidente de Obama para tratar desses negócios precisamente no ano em que Ianúkovitch foi deposto no golpe de Estado ucraniano e substituído por um governo anti-russo e pró-ocidente. Estas são as peças no tabuleiro, estas são as cartas na mesa, estas são as razões do bloqueio, e não a paz. E as “energias verdes” vão entrar sim no negócio, se for promessa de lucro quando a fonte esgotar. Enquanto isso o trabalhador europeu pode dormir “em paz”, com a alma lavada de ter feito sua parte para evitar a III Guerra, e pagando uma conta dobrada do gás oferecido pelo concorrente ianque.

Mas voltemos à questão da “indignação seletiva”, agora não em comparação com outras guerras mundo afora, e sim nos distintos tratos com essa mesma guerra russo-ucraniana em seus diferentes lados. É interessante que na Deutsche Welle, na CNN, etc., não são mencionadas vítimas civis de etnia russa nas áreas de conflito separatista, como aliás não as mencionaram por todos esses anos desde 2014. A jornalista francesa Anne-Laure Bennel, que cobre esses conflitos desde o documentário de sua autoria “Donbass”, reportou que forças ucranianas estão bombardeando populações civis de etnia russa na região, porém os canais franceses classificaram sua cobertura como “propaganda putinista”, “fake news” e outros rótulos, impedindo-a de ir ao ar. Há portanto certa barreira para impedir o exercício da empatia em relação a essas vítimas. Já na televisão russa as vítimas civis ucranianas não têm lugar no noticiário, a não ser que sob o argumento, não de todo implausível, de que milícias nazistas entrincheiradas em Mariupol usam-nas como “escudo humano”. Ou então, com espantosa frieza, se chegam imagens de civis ucranianos abatidos por forças russas, inspeciona-se a fotografia do cadáver para se provar, “cientificamente”, que se trata de uma montagem. Da cobertura jornalística na televisão russa, ao menos na RT, me pareceu que os russos são mais “formais” na maneira de veicular (herança kremlinológica: as cartas estão dadas, é seguir a cartilha, e ai de quem não); a guerra é sempre referida por “operação militar especial”, como ordena o governo, e não se vê um especial apelo para o lado sentimental, salvo talvez na cobertura da população civil alvejada nas áreas separatistas. Evidente, a identificação aqui é de russos com russos. A dor das pessoas humanas, portanto, é repartida, e cada lado do conflito chora somente os seus, mas a dor do lado oposto é omitida, ou então manipulada, ou então desacreditada. Essa “formalidade” russa é na realidade falsa, e a pessoa desobediente, por um cartaz ou indevida exclamação, é desaparecida, presa, torturada (a sujeira da tortura nos porões da limpeza “formal”). Já em nosso país o que se passa nem de longe lembra uma formalidade, antes pelo contrário: apelação emotiva. Mas não vamos falar do Fantástico e da espetacularização em si, tomemos por exemplo uma tentativa de criar um debate “especializado”: também na Tv Globo, Guga Chacra pisou um centímetro fora da linha e levou uma bronca no ar, a ponto da excomunhão; ele falava sobre “teoria realista”, “realpolitik”, quer dizer, o jogo estratégico de interesses por detrás dos movimentos nacionais (“formalidade”); respondido por vociferações do Carlos Sardenberg, ele se retrata: “não me associe a qualquer forma de defesa da ditadura sanguinária de Putin”. É interessante que na televisão russa (ao menos nos noticiários que eu vi) Zelenski não costuma ser chamado “ditador sanguinário”, “czar carniceiro”, etc.; em geral ele é designado por mandatário ou algo equivalente. Se no Pravda soviético certas notícias só poderiam ser ditas nas entrelinhas, todavia nós, sob os holofotes de Cidadão-Kane, aprendemos a arte da notícia bombástica.  

O bombardeio é intenso, como na guerra (literalmente), para acertar o ponto sensível e desnortear a percepção do sujeito, e a apelação faz parte do espetáculo, o choque necessário ao frenesi de opiniões. Nas redes sociais, não preciso dizer, o cancelamento é a regra. Pensando bem, até a atitude das nações, nas relações internacionais, reproduz um comportamento “cancelador”. Por exemplo, o governo da Lituânia cancelou o envio de 440 mil doses de vacina para Bangladech em retaliação porque o país não se posicionou contra a Rússia na assembléia da ONU. Obviamente o resultado desse cancelamento será o aumento do número de mortes por covid-19 num dos países mais empobrecidos da Ásia. Maior lástima, para quem acompanha a digladiação pública na arena das redes, é perceber o efeito nocivo dessa lógica para a constituição de um senso crítico, às vezes até entre amigos ou pessoas de intelecto insuspeito. Saltam aos ouvidos, na bronca do Carlos Sardenberg, expressões como “o caso é o seguinte” (que ele repete, levantando o tom, duas vezes em seqüência), ou proposições sentenciosas como “a Rússia está errada!” Ou então, um professor universitário, revoltado com a falácia do “mas e...”, diz: “não existe ‘mas’ em se tratando de refugiados, mulheres e crianças, etc.” (mais perfeita formulação impossível: o “não existe ‘mas’” é o contrário complementar do “mas e...” e reproduz em essência a mesma falácia); já outro professor universitário, um historiador famoso, repreende uma colega de trabalho, que recomendou nas redes sociais um documentário crítico ao golpe na Ucrânia de 2014 e a conseqüente situação da população civil em Donbass: “Não é preciso ver documentários, basta ver o bombardeio implacável que destrói a Ucrânia”, etc. Com isso, há uma pressão muito forte, moral, para não (queria dizer assumir o lado oposto, mas não é isso, precisamente:) nuançar o debate. O dilaceramento emocional, que impacta a todos em virtude da guerra, se converte na exigência de não racionalizar suas problemáticas, como se automaticamente isto significasse uma insensibilidade para com a dor humana. No entanto, existe sim algo de insensível no comportamento de certa trupe putinista que usa da gélida “formalidade” das justificativas pró-russas (os tratos descumpridos da OTAN, a necessidade de um mundo multi-polar, etc.) para acatar ao “mal menor” da guerra. De outro lado, essa falta de empatia se reproduz no seu inverso ao não se permitir uma empatia com as vítimas de Bonbass (esse mesmo professor-historiador diz: “só há um povo sendo destruído na Ucrânia: o povo ucraniano!”). O debate resulta então interditado, corta-o de fora a fora o “isto ou aquilo” e não se consegue fazer uma leitura ao mesmo tempo sensível e crítica dos eventos. “Hay que endurecer pero sin perder la ternura”, e diríamos ainda, há que ter o coração terno, sensível ao drama humano presente, mas sem derreter o cérebro e a capacidade de pensar. Falaciosa é a dicotomia entre “realpolitik” e a solidariedade humanista. Pensando, pois, investigando retidamente os cálculos do frio metal que operam nessas guerras, o sentimento de revolta pelas vítimas imoladas se torna mais amplo, universal, e bem direcionado. Universal porque todas as vítimas, as russas em Donetsk e as ucranianas em Kíev, e as iemenitas, e as sírias, e as yanomami, todas são vítimas igualmente; e bem direcionado porque nenhum governo, nem o russo, nem o ucraniano, nem o saudita, nem o norte-americano, nenhum governo é digno de nosso apoio no nefasto jogo da guerra.

Agora uma palavrinha sobre “Zelensky, herói iconopolítico”, uma pérola de requinte acadêmico. O autor é Frédéric Bisson, jornalista e animador de rádio, além de “blogueiro culinário” nas horas vagas. Em sua análise da atual guerra russo-ucraniana, Bisson parte do mesmo senso comum segundo o qual esta possuiria algo de anacrônico (“shooting war”), como um “de ja vu” de épocas passadas, o cenário da Guerra Fria, “tão desgastado que achávamos não ser mais possível”, em suma a “discrepância anacrônica entre esta guerra e nossos cenários possíveis e disponíveis, nossos roteiros, nossos imaginários”. Pois o possível, diz ele, “não é apenas uma categoria abstrata, lógico-ideal, é também uma categoria concreta do imaginário... o tanque, o míssil são não apenas realidades locais, mas também imagens ubíquas ‘radiantes’; uma bomba explode não apenas em Kíev ou Kharkiv, mas em todo o mundo, em fotos”, etc. Até aqui nenhuma novidade, exceto a novidade mesma da guerra, apenas, é claro, para quem está devidamente cercado de privilégios ao ponto de bombas e mísseis não figurarem em seu repertório de possibilidades; se agora, porém, a guerra volta a figurar, o que torna esse cenário possível é justamente a imagem. É a guerra enquanto cenário, enquanto imagem, o que define a “iconopolítica”, ou seja, a produção desses imaginários pelos agentes envolvidos no conflito e que revelam também diferentes estratégias e “regimes” político-midiáticos. Segundo o jornalista, “as imagens da guerra engendradas pelo governo de Putin pertencem a um regime icônico caduco. Pois o possível também nasce, vive e, às vezes, morre.

“É evidente que as imagens da força armada formam um sistema com a encenação do poder russo: o presidente autoritário que entra em cena e se senta sozinho a sua mesa; a mesa de seis metros, lacada a branco e decorada com ouro, onde recebe Macron em 7 de fevereiro, etc. Trata-se de um imaginário teatral, isomórfico com a guerra territorial de posições. O teatro está ligado à unidade de lugar da cena física, assim como a guerra de invasão está ligada à geografia do território”.

Bisson recorda o caráter teatral da côrte imperial russa desde Pedro o Grande, quando este impôs novos códigos de maneiras importadas da Europa e que demandaram ser aprendidas e encenadas artificialmente. Tal encenação seria uma espécie de atributo nacional e, é claro, devedor de um poder autocrático, idealizado por Putin, não esquecendo de mencionar o retrato de Nicolau II no seu gabinete presidencial. “Parece óbvio que Putin ainda se inspira no velho imperialismo russo, cujo ímpeto foi quebrado pelo colapso da União Soviética, e também se inspira na dimensão teatral dessa forma de poder”. Igualmente teatral por essência seria a sua invasão, com tanques e artilharia, que performaria no presente alguma cena do passado, e em vez de lágrimas e aplausos resulta somente num estranhamento para quem vê essas imagens sem as poder conjugar com o universo referencial e simbólico de nossa atualidade. Por isso, diz ele, “no final de fevereiro Putin já havia perdido a guerra iconopolítica, [pois]... o que pode o teatro em um mundo onde o vírus é o novo paradigma da informação, um mundo onde a imagem se funde e é replicada em vídeos nas redes globalizadas?”

“O modelo midiático de ação política no século XXI não é o teatro, nem mesmo o cinema, mas o streaming de televisão e, mais ainda, o vídeo, o post, a ação direta do jornalismo cidadão. Nesse sentido, esta guerra é talvez uma das convulsões tardias do século XX. O isolamento de Putin no cenário internacional não se explica por uma ‘hegemonia’ econômica americana, mas pela admonição mais difusa de um regime dominante de signos, pela aura silenciosa do que eu chamaria de uma ‘política icônica’”.

A conseqüência Bisson tira a seguir, ao comparar a “caduca” encenação de Putin com “a fulgurante ascensão iconopolítica de Volodímir Zelensky”. Zelenski, recorda, é ator, comediante que interpretava um homem comum numa série de televisão e concorreu vitoriosamente ao cargo que ocupa desde 2019. Não somente às qualidades de ator se deve seu sucesso e vantagem na guerra midiática, e sim a certa afinidade de sua performance com o regime de informação mais atual, a potencialidade de “toda uma forma global de visibilidade, da qual Zelenski é emanação e concretização pessoal”. Pois “o cômico da ficção também passa para o real... Zelensky opõe-se a Putin com a ironia do ícone. Icônico, está fora do alcance dos comandos que o miram. Zelensky não é apenas o improvável adversário político de Putin, promovido à presidência da Ucrânia por uma oportunidade eleitoral, ele é mais do que isso: o anti-Putin, semioticamente falando, seu adversário ideal.

“Entre Zelensky e Putin ocorre uma verdadeira batalha de atores, que reflete a luta entre aparatos midiáticos anacrônicos. Zelensky consegue se impor como o homem do momento, federando a democratização de seu povo, não apenas pela heróica coragem individual, mas porque sua ação coincide com as condições de visibilidade. Por um lado, a televisão é um meio doméstico; graças a ela, a ficção entra em nossas vidas, através de personagens conhecidos que nos acompanham e nos educam. Assim Zelensky, presidente e chefe de guerra, é forçado a se fazer à imagem de sua imagem, para continuar a dar vida ao seu personagem fictício em atos e símbolos. Sua coragem vem em parte desse duplo fictício, que ele materializa. Por outro lado, os vídeos ‘horizontais’ que Zelensky postou nas redes sociais com seu celular, desde os primeiros dias da invasão, foram um contraponto eficaz à desinformação russa. Zelensky produz suas próprias imagens como os ucranianos produzem suas armas improvisadas, preparando-se para lutar contra o exército russo: ele faz seus vídeos como coquetéis molotovs. Assim, ele é um presidente-cidadão, acusando em contraste o ridículo anacronismo da pompa e do aparato estatal com que Putin se adorna”, diz Bisson, e brilhantemente conclui: “A democracia não é essencialmente uma forma de governo, é antes de tudo uma forma de vida. A maneira como trocamos, como nos conectamos na sociedade civil, como nos informamos, como retransmitimos e compartilhamos informações: esses são marcadores seguros da democracia. Assim Zelensky precipita a Ucrânia em uma forma de vida democrática, da qual a guerra é a ocasião involuntária e a cristalização”.

Ora, pompa é todo esse jargão e requinte analítico para dar assim com a testa na parede. Então quer dizer que a heroização de Zelenski é tão somente fruto de uma técnica “horizontal” de informação? Zelenski promoveria uma “democracia midiática” ao usar captura de vídeo e imagem viral a seu favor? E vai ver nós trocamos, nos informamos e retransmitimos informações (“marcadores seguros da democracia!”) seguramente livres de influências escusas. Esqueceu-se, é claro, de mencionar que TODO o aparelho midiático mundial está mobilizado para vetar a transmissão de canais russos e a ordem para isso vem lá de cima (Meta, Youtube, grandes impérios da informação); não tem nada de democrático nisso, é a guerra abertamente declarada em nível informacional, e os produtos disso, a orientação da opinião e da sensibilidade, de que fazem parte a heroização de Zelenski e a demonização de Putin, e vice e versa, são frutos calculados dessa guerra, exercício de poder e controle absoluto da informação, tanto na Rússia como no Ocidente. O compartilhamento “horizontal” de informações entre indivíduos é um segundo nível de circulação apenas. Bisson parte de um modelo midiático ideal, certo “jornalismo-cidadão” que ele equipara com ação direta, como se as informações circulassem no meio social diretamente, quando esse processo, pelo contrário, é sempre mediado, objeto de controle e poder. Comparar a vídeo-cam de Zelenski com um coquetel molotov, “armas improvisadas” com que o povo ucraniano luta contra tanques e aviões, como se o pesado tanque de guerra fosse o correlato do velho aparato de comunicação-dominação, já caduco e ineficiente contra a arma viral, implica em omitir toda a estrutura de poder econômico, militar e informacional que atua nessa guerra. Definitivamente Zelenski não é um menino palestino, não atira com estilingue; está munido com armamento de última tecnologia, fornecimento especial das potências ocidentais.

Para nós na condição de brasileiros esse texto talvez soe um tanto esquisito. Seu autor deveria estudar o Bolsonaro e suas “lives” com pão na chapa e leite condensado. Nada disso é improvisado, e por trás dessa estética existe um grande poder militar-miliciano, e muito bem armado, que a assegura, e o mesmo aparato televisivo-midiático, que fabrica esses líderes, e oligarcas de lá e daqui, que os financiam. Zelenski era ator de Tv, uma espécie de comediante, mas não veio do circo nem tocava realejo na esquina, tampouco consideraremos um salto democrático se um dia Luciano Huck galgar a presidente. Mas em uma coisa o texto acerta, que essa linguagem “viral” é uma tendência, e eu acrescentaria, uma potencial arma não só de resistência como presentemente de dominação. Pensando bem, existe algo de “viral” no script estadunidense: em vez de um desfile de tanques e invasão declarada, infiltram-se distúrbios, treinam-se milícias, traficam-se armas, coopta-se o judiciário, maquinam-se golpes, financiam-se campanhas, criam-se “mitos”, e transmite-se o espetáculo. Quem viveu as eleições presidenciais de 2018 no Brasil sabe que o curso dos “disparos” virtuais é premeditadamente manipulado por gabinetes de inteligência ocultos; que a arma viral-virtual foi aprendida e incorporada taticamente, de fato com um poder de alcance maior que a usual propaganda no horário eleitoral; que de modo algum a aparente espontaneidade desfocada de uma “live” é menos mentirosa que o mundo colorido plástico dessas propagandas. Curiosamente, como por um reflexo posterior sob a ressaca de toda a onda imoral de desinformação, parte da esquerda ou do público mais crítico se reconciliou momentaneamente com as mídias “tradicionais”, e Rede Globo ou Folha de São Paulo voltaram a gozar de não sei que credibilidade, quando de fato a imoralidade é a mesma, mudando somente a “forma” e o patrão. Também o discurso bolsonarista acusa esses meios mais institucionais de veicular como algo ultrapassado e despótico, e alça sua rede de fake-news ao patamar mais revolucionário de desobediência civil-midiática, não como uma “rede horizontal de informação” e sim de modo muito estudado, como uma tática militar e, presume-se, com participação de militares. A Ucrânia viveu um golpe em 2014, nós em 2016; não seria arriscado supor que o processo midiático lá se tornou igualmente viciado. Tudo aqui é teatro; filmado, fotografado, acima de tudo encenado, não por ações improvisadas, mas teatro com diretor e figurino. E teatral quer dizer: falso. Falsa é a encenação russa, falso é Putin com seu filme demodê de Guerra Fria; mas Zelenski não seria teatral e sim a própria coisa (a imagem em sua manifestação mais atual) e por isso não aparentaria falsidade; a televisão russa é uma arma de desinformação, mas a televisão para Zelenski ofereceria apenas a “oportunidade eleitoral”, um meio democrático de ascensão (o filme da vida do Capitão-Ucrânia: um marcador seguro de democracia!). A Tv é aqui descrita com particular inocência, ela seria um “meio doméstico”, ambientado na sala-de-estar e que participa de nossas vidas através de “personagens conhecidos que nos acompanham e nos educam” e pobre Zelenski! o ator é apenas “forçado” a interpretar um tal personagem... De fato, a inocência de uma novela... não é de modo algum a Tv-corporação, ambientada, isso sim, em imperiosas mesas de negociações no alto de edifícios de vidro, onde se sentam não personagens, mas diretores da situação, e tomam decisões de poder. Interessante, a manutenção de uma elite que controla os meios de informação nunca é problematizada, fala-se no “democrático” que é o compartilhamento de vídeos caseiros por apps, mas NUNCA em democratizar os meios de informação em si, cujo poder é erroneamente subestimado. Como se as bombas apenas “explodissem em fotos”, a circulação midiática é descrita como um mecanismo aleatório, “viral”. Ora, o jornalista admite que se trata de uma batalha de atores, uma guerra entre aparatos midiáticos, mas ingenuamente identifica, ao comparar esses aparatos, o regime atual de informação com algo de democrático e livre; por trás desse pensamento está a crença de que o “velho imperialismo” foi superado, e entenda-se aqui, sob a máscara de autocracia, a sombra da URSS que paira ainda como um espectro. Afinal, tudo que nasce morre, e em seu lugar a democracia ocidental a sucederia naturalmente. E a guerra como exercício de poder também teria “morrido”, ou caducado, já que os países democráticos do Ocidente, ah, esses não fazem guerra! E a “hegemonia americana” (sic), oh, não tem nada a ver com isso, Putin perdeu a guerra por mera incompatibilidade de signos! Como é possível tal perspicácia intelectual e refinamento vocabular, e no entanto crer em contos de fada? Sim, super-vilão e super-mocinho apenas se revestem aqui de um escudo teórico, mas os papéis são os mesmos e, como num conto de fadas, saltos lógicos e omissões não contam. Acontece que não se trata de um conto de fadas qualquer, e sim uma ladainha muito repetida e que tem seus encantos, a muitos de nós enfeitiça. Não, essa boa-fé no sistema instaurado releva mais que ingenuidade: uma crença infantil na democracia burguesa.

Há a conhecida proposição segundo a qual toda guerra perde a razão quando cai a primeira vítima. Só a vítima, no instante da queda, e talvez o soldado, no apertar do gatilho, sabem o que é a guerra real. Para nós não “basta ver o bombardeio” porque de fato não o vemos, não vemos a guerra, mas somente informações a seu respeito, outro tipo de bombardeio, um sem número de mediações entre nós e o fato. Nem as assembléias da ONU, que afinal formam parte do espetáculo, nada é certo nessa arena, salvo o abismo da dor humana. Logo, tudo que é discurso, tudo que é imagem e tudo que é opinião o percebemos criticamente. Feita esta crítica, não se deve confundir o enquadramento midiático com a dor e desespero de pessoas que padecem agora sob a guerra; para o primeiro, nossa descrença, e para o segundo, nossa solidariedade. Um efeito nocivo da dualidade moral imposta pelo trato jornalístico, a obrigatoriedade de se tomar um partido ou outro e negar o oposto e tudo que a ele se relacione, resulta ser o endurecimento do olhar: não te permitem ter uma visão em perspectiva. Como diz a música: “E avenida em russo quer dizer perspectiva”; assim eu penso que somente com um olhar crítico podemos encontrar uma via de saída para esse conflito. Disto isto, traçadas aqui estas observações distanciadas, como um panorama discursivo, é hora de nos aproximarmos da dor humana que realmente nos importa. Por isso, reitero meu total repúdio à guerra, em todas suas formas, por todos seus agentes e em todos territórios em que se produza, sub quaisquer justificativas.  

 

Nenhum apoio a nenhum governo de nenhum país!

 

Toda solidariedade a todas as vítimas de todas as guerras!

 

  

 

                                         ~//~


Genivaldo, sobrenome Resistência

  Genivaldo, sobrenome Resistência                                                              André Nogueira  —  junho 2022     So...